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Jogando no ataque

Luiz Zanin Oricchio

01 de janeiro de 2008 | 10h59

Em 2008, ano de Olimpíada, vamos comemorar algumas datas importantes para a cultura brasileira – os centenários de nascimento de Cartola e Guimarães Rosa, os 100 anos da morte de Machado de Assis, 50 anos da bossa nova e 40 do tropicalismo. Mas para nós, boleiros, há uma efeméride importantíssima, os 50 anos da Copa da Suécia, quando o Brasil conquistou seu primeiro título mundial.

A maioria nem era nascida, ou era muito pequena para lembrar direito daquele 29 de junho de 1958, data do jogo final em Estocolmo. Mas, como dizia João Saldanha (que acaba de ganhar excelente biografia, escrita por André Iki Siqueira), a gente não precisa ter sido contemporâneo de Nero para saber que o incêndio de Roma aconteceu. Basta consultar a história. E a história é, por definição, aquilo que diz respeito a todos nós.

Com a conquista de 1958, começou a era de ouro do futebol brasileiro, que iria até 1970, com o tri. O que pouca gente lembra é que a seleção saiu desacreditada do País. No ano anterior, havia perdido de 3 a 0 da Argentina no Campeonato Sul-Americano. Mas, na Suécia, começou ganhando pelos mesmos 3 a 0 da Áustria, empatou com a Inglaterra por 0 a 0 e chegou à prova dos noves, o momento de enfrentar a União Soviética. Naquele tempo de guerra fria, achava-se que os comunistas comiam criancinhas no café da manhã. Havia também a tecnologia soviética, que tinha lançado no ano anterior o primeiro satélite artificial, o Sputnik, causando pânico nos Estados Unidos e, por tabela, nos países alinhados. Dizia-se que os russos tinham inventado um tal “futebol científico”, imbatível.

Nesse jogo, foram lançados Garrincha e Pelé, até então na reserva. Conta-se que o psicólogo da seleção havia desaconselhado a escalação dos dois pois Garrincha seria semi débil mental e Pelé, aos 17, ainda era imaturo. Pressionado pelos outros jogadores, o técnico Feola botou os dois no time, e eles não mais saíram. Um cronista da época descreve o início do jogo como “os cinco minutos mais eletrizantes da história do futebol”. Garrincha arrasava pela ponta direita e, logo aos 2′, Vavá aparava um cruzamento de Mané e punha no fundo da rede de Yashin, o maior goleiro do torneio. Aos 20′ do segundo tempo, Vavá marcava de novo. Fim do futebol científico.

A partir daí o mundo do futebol começou a prestar atenção no Brasil. A seleção ganhou do País de Gales com gol de Pelé, arrasou a França por 5 a 2 e, na final, aplicou o mesmo placar na Suécia, dona da casa, com dois de Pelé, dois de Vavá e um de Zagallo. Pronto, o Brasil lavava da alma a tragédia do Maracanã de 1950 e era, pela primeira vez, o melhor do mundo. Ganhou e deu show, com uma equipe que, na final, atuou com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Jogava bonito e de maneira ofensiva, com uma equipe de grandes jogadores e dois gênios da bola, Pelé e Garrincha, que, atuando juntos, jamais perderiam um jogo pela seleção.

Vale lembrar que, naquela época, o país também andava rápido e vivia seu tempo de euforia. O governo de Juscelino Kubitschek prometia 50 anos de desenvolvimento em 5. Havia a nova música surgindo, o cinema se reinventava, o teatro, a literatura e as artes plásticas procuravam caminhos originais, Brasília era construída. Um país novo, no qual tudo se inventava, inclusive o futebol.

O que essa história bonita tem a ver com a gente? Tudo, pois ela nos pertence e, se não serve como modelo, pode ser fonte de inspiração. Em 1958, o Brasil, inteiro, metia a bola em gol. E, em 2008, vamos jogar no ataque ou na retranca?

Excelente ano para todos.

(Esportes, Coluna Boleiros, 1/1/08)

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