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Joana d´Arc em Cuba

Luiz Zanin Oricchio

13 de dezembro de 2006 | 14h49

Bem, o que posso dizer é que foi uma sessão para se ver em estado de graça essa de Joana d’Arc, de Carl Dreyer, em cópia recuperada, na Catedral de Havana. Com direito a coro e acompanhamento de órgão. A história desse filme de 1928 é assombrosa. As versões existentes e conhecidas até os anos 80 eram incompletas. O negativo original foi destruído por um incêndio do laboratório pouco depois de sua estréia, em 1928. Dreyer o reconstruiu e a nova cópia foi devorada por outro incêndio, desta vez na França. O que sobrou foram cópias incompletas depositadas em várias cinematecas do mundo. No ano de 1981, algumas latas com os originais foram encontradas num hospital psiquiátrico norueguês. Haviam sido conservadas em estado quase perfeito por quase 50 anos. Essa cópia foi restaurada e digitalizada, de modo que foi a obra-prima integral, tal e qual foi concebida por Dreyer, que vimos ontem em Havana.
Para mim, foi como se visse o filme pela primeira vez. Tinha na memória as cenas das cópias incompletas. Mas várias passagens haviam sido suprimidas. Algumas delas: a seqüência na sala de tortura, quando os aparelhos são mostrados mas não se vê nenhum cena explícita, e nem por isso o nosso horror é menor; a mãe amamentando o filho enquanto Joana é levada para a fogueira; o motim popular após a execução, com tiros de canhão sendo disparados contra a multidão. Uma verdadeira epifania, com as imagens da Falconetti, no papel que, dizem, a levou à loucura, brilhando na tela.
O lado anedótico da sessão: na primeira fila da igreja estavam sentados o diretor do festival, Alfredo Guevara, amigo pessoal de Fidel, ao lado do cardeal de Havana. Comentei com um amigo cubano que não deixava de ser uma ironia um representante do governo marxista lado a lado com a autoridade máxima da Igreja de seu país enquanto na tela se projetava um filme sobre a intolerância clerical. Meu amigo me respondeu que mesmo na fase mais complicada do relacionamento entre o governo cubano e a igreja, o Icaic, que é o órgão estatal do cinema, não deixou de manter uma ponte de relacionamento com os padres. Curioso. Não sei direito porquê, me lembrei que na Itália dos anos 50 e 60, quando a Igreja de Roma ainda tinha poder de censura, era um sacerdote, o famoso padre Arpa, quem quebrava o galho dos cineastas e tentava livrar seus filmes do veto do Vaticano. Sempre, em meio ao mais profundo obscurantismo, se encontram mentes lúcidas e libertárias que, de maneira diplomática, conseguem melhorar, na medida do possível, o tempo em que vivem. Portanto, lembrei também do cardeal Arns.
Quem chegou por aqui foi a atriz Hermila Guedes, de O Céu de Suely, e teve problemas no aeroporto. Não conseguiu passar com um aparelho de DVD que trazia. Espero que sua estadia cubana não seja menos feliz por causa do contratempo. Já Tata Amaral, diretora de Antonia, tem sido festejada pelos movimentos black de Havana. Por onda anda, há uma corte de admiradores atrás. Tanto o seu filme, como o de Cacá Diegues, O Maior Amor do Mundo, ganharam críticas bastante positivas de Rolando Pérez Betancourt (um dos melhores de Cuba) no jornal Granma. Outro brasileiro com destaque no noticiário é Oscar Niemeyer, principal manchete do Juventud Rebeld: é que Niemeyer doou uma estátua para a nova Universidad de las Ciencias Informáticas, como presente de aniversário ao seu amigo Fidel Castro.

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