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Diário da Mostra 2014. Jia Zhangke, por Walter Salles

Luiz Zanin Oricchio

27 de outubro de 2014 | 11h02

O documentário Jia Zhang-ke – um Homem de Fenyang não tem esse nome por acaso. Seu diretor, Walter Salles, sabia que precisava ir à região onde nasceu e cresceu o chinês, responsável por algumas obras-primas do cinema contemporâneo, como Plataforma e Em Busca da Vida. Motivo principal: a forte ligação de Jia com sua terra natal, seus amigos, família, companheiros de escola. Entrevistá-lo em outros lugares e outras condições não daria o mesmo resultado. Seria outro filme e, com certeza, não teria o mesmo efeito que este sobre o espectador.

O longa, filmado em Fenyang, mas também em outros lugares da China, como Pequim, Pingayo, Nan-che e outras cidades e vilarejos da região de Shanxi, revela o cineasta preocupado com a questão formal, mas, em especial, um cronista da dolorosa transformação por que passa a sociedade chinesa – da rígida economia planificada ao dogmatismo do mercado. Mudanças radicais que, se por um lado trouxeram a China ao protagonismo da cena econômica mundial, por outro, sujeitaram a população a uma perda de identidade crescente.

Não por acaso, também, Jia é um cineasta consagrado no exterior e proscrito em seu próprio país. Uma das cenas mais dramáticas do longa é quando o cineasta recebe a notícia de que seu longa de ficção mais recente, o duro e maravilhoso Um Toque de Pecado, fora proibido na China. Nesse momento, Jia diz aos amigos que sempre o seguem, que está prestes a tomar uma decisão radical, a de não mais filmar.

Em outros momentos, o pesar pela censura é temperado pelo humor. Jia conta que ficou contente ao ser abordado por um ambulante lhe oferecendo uma cópia pirata de…Plataforma. De ótima qualidade, alegra-se, por saber que a pirataria tornou possível a circulação da obra proibida pela China. Mas lamenta que seus filmes não possam ter a carreira normal de qualquer obra cinematográfica e ser exibida nas salas de cinema.

Há outros momentos de emoção no filme. Nenhum deles igual à recordação da memória do pai, já morto. Jia se lembra de que o pai teve problemas com a Revolução Cultural quando um dos seus diários pessoais cai nas mãos dos comissários e trechos foram considerados “reacionários”. Foi mandado para reeducação. E, quando soube do teor do cinema que o filho estava fazendo, lamentou e previu que ele teria problemas. Nesse depoimento, a voz de Jia Zhang-ke, pela primeira e última vez, fica embargada.

No resto todo do filme ele parece uma pessoa despojada, simples, sem qualquer estrelismo, e dono de um senso de humor que, provavelmente, lhe permitiu enfrentar melhor diversas situações complicadas. Que, claro, não faltam em um Estado autoritário, como o chinês.

Essa percepção pessoal do personagem é mesclada a trechos de seus filmes e também a passagens mais reflexivas sobre sua obra. Numa delas, Jia faz uma declaração surpreendente, até certo ponto. Diz que, durante uma filmagem, se tudo flui de maneira calma e sem problemas, começa a ficar preocupado. Pelo contrário, se dificuldades começam a surgir, ou se, por momentos, ele não sabe como prosseguir, aí sim percebe que está no caminho certo. Como se a adversidade fosse fonte necessária para fazer a intuição e a criatividade funcionarem.

Esse personagem complexo é retratado de maneira inteira pelo documentário. Jia Zhang-ke é um caso particular do cinema contemporâneo. Na apoteose do cinema-espetáculo, ele aposta num cinema reflexivo de teor humanista. É muito preocupado com a questão da forma e da linguagem cinematográfica, como todo cineasta deveria ser. Mas não faz da forma um fetiche porque seu cinema é ancorado em sua gente, nos amigos, nas velhas vizinhas de Fenyang, na família, nos operários despossuídos pela precarização do trabalho na nova China – no real, enfim, com seus encantos e sofrimentos e, sobretudo, com suas contradições. É, para muita gente, um dos principais criadores em atividade e, para Walter Salles, o mais poderoso cineasta em atividade. Ganha, com este documentário, um filme à sua estatura.

 

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