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A segunda morte de Jean Delannoy (1908-2008)

Luiz Zanin Oricchio

20 de junho de 2008 | 17h26

Confesso que fiquei surpreso ao ler no jornal uma nota sobre a morte de Jean Delannoy. Seria o mesmo? O próprio. Morreu, com mais de 100 anos. Se alguém me dissesse que estava morto há 30 ou 40 anos, não estranharia nada. E sabe por quê? Porque, como alguns dos (breves) necrológios relembram, Delannoy foi a principal vítima dos “jovens turcos” da revista Cahiers du Cinéma nos anos 50.

Truffaut, Godard, Rohmer, Chabrol e os outros consideravam o cinema de Delannoy o fim da picada. Acadêmico, cheirando a mofo, sem espaço no mundo ao qual acabavam de chegar aqueles críticos imberbes e já com ares de futuros diretores. Um deles em especial, François Truffaut, bateu em Dellanoy a mais não poder, em especial num artigo que ficou famoso – Uma Certa Tendência do Cinema Francês, de 1954.

Daí a sensação de que o diretor já estava morto havia muito tempo. Era como se Delannoy e seu cinema tivessem sido enterrados em vida ainda na década de 1950. No entanto…fisicamente, Jean Delannoy sobreviveu a François Truffaut por nada menos que 24 anos.

Dei uma olhada nos obituários dos principais jornais franceses e todos relembram o episódio. Sem exceção, do Libération, Le Figaro, passando pelo Le Monde, recomendam que seja dada uma segunda oportunidade à obra cinematográfica de Delannoy. Enfim, raciocinam, seus filmes não eram tão ruins assim. Em especial suas adaptações de Simenon, Assassinos de Mulheres e O Castelo do Medo, parecem bem palatáveis, pelo que me lembro. Delannoy colaborou com Cocteau (O Eterno Retorno), adaptou Gide (Sinfonia Pastoral) e trocou figurinhas com Sartre (Les Jeux Sont Faits). Mas é verdade que seu cinema, de maneira geral, parece mesmo meio engessado, embora obra de artesão competente. Falta-lhe vida, é verdade, mas, quando se lê o que Truffaut escreve a seu respeito, tem-se a impressão de filmes que não mereceriam sequer a lata de lixo.

Os próprios “jovens turcos”, mais tarde, reconheceram ter pegado pesado demais com a geração mais antiga do cinema francês. Diziam, com ironia, que faziam um “cinéma de qualité” ou “cinéma de papa”. Cinema de pijamas, acomodado, literário. E, de fato, inspirando-se em especial no cinema americano que tanto admiravam, trouxeram um vento de renovação que teve repercussão em muitos países do mundo, ultrapasando as fronteiras da França. Talvez não tenham ido também tão longe quanto sonhavam. Talvez, como com freqüência acontece, tenham se servido de algum ponto de apoio mais visível para, malhando-o, poderem sobressair e se afirmar. Delannoy estava no caminho e sobrou para ele.

Mas tudo isso agora são cinzas do passado, pois a própria nouvelle vague conta com mais de meio século de existência. E só agora o pobre Delannoy encontra seu fim, deixando cerca de 30 longas-metragens, dos quais alguns precisariam ser mesmo revistos, talvez repensados, se é que existem cópias disponíveis para tanto. Esse bom contador de histórias trabalhou não apenas com autores consagrados mas com a fina flor da arte de interpretar na França como Jean Gabin, Michelle Morgan, Jean Dessailly.

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