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Jards, a aproximação poética ao artista

Luiz Zanin Oricchio

03 de julho de 2013 | 10h56

Não se deve buscar em Jards, de Eryk Rocha, uma cinebiografia convencional de Jards Macalé. Este filme já foi feito por Marcos Abujamra e João Pimentel (em Jards Macalé: um Morcego na Porta Principal, 2008), num trabalho que abordava 40 anos de carreira do artista, inclusive com sua participação, como ator, em diversos filmes como Tenda dos Milagres e Amuleto de Ogum,de Nelson Pereira dos Santos, entre eles.

Jards, como o título indica, tomando apenas o prenome do artista, propõe abordagem mais intimista. Mais rente ao processo de criação muito particular do autor. Jards é, também, o título do disco cuja gravação, em diversas etapas, é acompanhada pelo filme.

Desse modo, Eryk propõe uma aproximação mais ensaística, e de pegada poética, do trabalho e da pessoa de Macalé. Desse modo, o viés é mais sensorial que analítico. Por exemplo, não inclui depoimentos, nem de especialistas e nem de amigos sobre Macalé. O que se explica, porque o filme não se constrói sobre alguém, mas ao redor desse artista singular. Não está aí para relatar a obra, ou decifrar-lhe origem ou sentido, mas para propor um modo de fruição da mesma.

Daí o gosto pelo fragmento, mesmo quando alternado a longas sequências, como, por exemplo, quando Macalé grava, mais uma vez, uma de suas obras-primas, Movimento dos Barcos, parceria com Capinam. Mas essas tomadas mais longas são alternadas com outras, curtas e alusivas. Vê-se o movimento das ondas do mar, luzes, imagens desfocadas ou impressionistas, cenas em que o filme é levado ao diálogo com a vídeo arte. Uma vertente que tem caracterizado certa produção de Minas Gerais, mas universo não estranho a Eryk, que estreou com Rocha que Voa (2002), um belo ensaio poético sobre o pai, Glauber Rocha.

De toda forma, é ao redor da beleza da obra de Jards Macalé que o filme vai dispondo seus elementos. Do som e do corpo – este explorado pela proximidade cada vez maior da câmera. O uso de supercloses, que tomam apenas frações do rosto, ou das mãos, também é usado quando entram em cena outros participantes do filme, como a cantora Adriana Calcanhoto e Luiz Melodia, por exemplo. Ou os músicos da banda que acompanha Macalé.

Jards também é entremeado por flashs de filmetes em super-8 mostrando o artista em sua juventude. Pelos créditos finais, ficamos sabendo que são tomadas domésticas de Jards Macalé, feitas, ao que parece, em Nova York e Londres, entre o final dos anos 1960 e 1970, quando a ditadura brasileira empurrava tantos artistas para o exílio, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Havia uma (contra)cultura à brasileira florescendo no exterior e dela Jards Macalé fazia parte, tocando com Caetano quando este vivia em Londres.

Mas estas são informações exteriores ao filme, que só detecta a passagem do tempo pela óbvia transformação física do personagem e também pela textura diferente do material gravado. Cabe ao espectador traçar as pontes entre o artista da contracultura dos anos 1970 e o músico, maduro mas sempre inquieto que vemos no tempo atual. São passagens poéticas, isto é, que não se explicitam por uma narrativa em off, do tipo “aqui vemos Jards Macalé em Londres, em 1971, para onde tocar com Gil e Caetano”. Não, elas apenas são colocadas lado a lado, por aproximação e contraste.

Desse modo, Jards, pela concentração poética e sua opção não diacrônica ou biográfica, coloca-se como ponto fora da curva da voga de documentários musicais brasileiros. Como se sabe, estes têm explorado, com maior ou menor felicidade, a riqueza musical do País, optando ora por personagens, ora por gêneros e mesmo por instrumentos, como O Milagre de Santa Luzia, sobre a sanfona. O maior de todos, na opinião deste crítico, é A Música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, centrada na obra do maestro e em sua disseminação pelo planeta. Tom Jobim, mais que um doc, é um filme-música.

O caminho de Jards é outro, assim como foi o de Cartola, de Lírio Ferreira (autor também de O Homem que Engarrafava Nuvens, sobre Humberto Teixeira). Estabelece uma relação de cumplicidade subjetiva com o artista. Este não é o “objeto” do cineasta. Ele não se coloca numa relação de exterioridade ao artista ou à obra. São filmes de proximidade máxima, levando ao extremo as possibilidades de fusão e encontro estético.

Daí parecerem um tanto excêntricos ao projeto de Jards as imagens externas, como as de ondas batendo na praia, e que são autênticos clichês visuais num filme que, em todos os seus outros momentos, parece evitá-los.

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