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Janela Indiscreta: o conto que deu origem à obra-prima de Hitchcock

Luiz Zanin Oricchio

27 de setembro de 2008 | 10h29

É impossível ler Janela Indiscreta, de Cornell Woolrich, de maneira neutra. Isso porque o conto, que encabeça uma coletânea do autor (Janela Indiscreta e Outras Histórias, Cia. das Letras, 208 págs., R$ 33, tradução de Rubens Figueiredo), como todos sabem, transformou-se num dos grandes filmes do mestre Alfred Hitchcock. Ninguém há de esquecer o personagem de James Stewart, imobilizado diante de sua janela, bisbilhotando a vida alheia como forma de matar o tempo.

Assim, quando lemos o conto, de 40 e poucas páginas, imaginamos quanto de talento e criatividade foram necessários para transformar em imagens essa história de suspense baseada em apenas um ponto de vista – o do homem imobilizado que contempla seus vizinhos até descobrir, ou suspeitar, que um terrível crime acaba de ser cometido diante dos seus olhos.

Por sorte, dispomos de um notável documento, a longa entrevista que Hitchcock concedeu a François Truffaut, examinando sua obra filme a filme. Muita gente acha que é o mais belo livro de cinema já escrito. Certamente é um dos mais instrutivos e apaixonados. Hitchcock/Truffaut foi publicado no Brasil pela primeira vez em 1986. A edição definitiva, luxuosa, cheia de fotos, com prefácio de Ismail Xavier, é da Cia. das Letras, de 2004.

Talvez não seja perda de tempo lembrar a gênese desse livro histórico – em todos os sentidos do termo. Ainda nos anos 50, Truffaut, Chabrol, Rohmer, então jovens críticos de uma revista chamada Cahiers du Cinéma, haviam colocado Hitchcock no panteão dos grandes autores do cinema. Isso, numa época em que Hitch já era uma personalidade, fazia sucesso, ganhava dinheiro, mas não era levado muito a sério pela crítica. Truffaut conta que, em 1962, quando fora a Nova York apresentar Jules e Jim, um crítico americano lhe havia dito: “Vocês levam Janela Indiscreta a sério porque não conhecem o Greenwich Village.” Ao que Truffaut respondeu: “Janela Indiscreta não é um filme sobre o Village, mas sobre o cinema; e o cinema, eu conheço.” Portanto, esses críticos, tornados cineastas, queriam ver nos filmes algo além de suas temáticas, seus enredos. O segredo não estava no roteiro, mas na mise-en-scène, na direção. E, desse modo, ninguém melhor para defender essas idéias em uma entrevista do que Hitchcock, diretor extremamente consciente do seu instrumento de trabalho.

Depois desse incidente nova-iorquino, Truffaut conseguiu a longa entrevista, que se desenvolveu durante vários dias, num total de 50 horas de conversas. Como Truffaut não falava inglês e o francês de Hitch não ia além de um “oui”, tiveram de encontrar um tradutor fluente nas duas línguas e íntimo da terminologia técnica do cinema. Essa pessoa foi Helen Scott, do French Film Office, de Nova York, americana criada na França e apaixonada por cinema. Parece que apaixonada também por Truffaut, mas esta é outra história.

Na entrevista, ao iniciar o papo sobre Janela Indiscreta, Truffaut confessa que não conseguiu encontrar o conto de Woolrich para ler. Refere-se a ele como “o livro que lhe forneceu o enredo”. O próprio Hitchcock parece não se lembrar, em detalhes, da história original: “Tratava-se de um inválido que estava sempre no mesmo aposento. Creio me lembrar de um enfermeiro que cuidava dele, mas não o tempo todo.” De fato, o personagem tem um empregado que lhe fornece comida e remédios. E depois fará as investigações no apartamento do suspeito, pois o protagonista não pode se mexer. No filme, a figura masculina será convenientemente substituída pela namorada de Stewart – e a isso se deve a muito agradável presença de Grace Kelly na história.

Truffaut pergunta também se não foi o desafio que moveu Hitchcock a adaptar uma história de um único ponto de vista, filmado praticamente no cenário reduzido de um quarto que se abre para um pátio e os apartamentos em frente. Hitchcock admite que assim poderia fazer um “filme puramente cinematográfico”. Um homem imóvel que olha para fora e observa o que acontece. “Você tem o homem imóvel que olha para fora… É o primeiro pedaço do filme. O segundo pedaço mostra o que ele vê e o terceiro mostra a reação dele. Isso representa o que conhecemos como a mais pura expressão da idéia cinematográfica.”

Assim, o filme se passa entre o que a câmera mostra, do ponto de vista de Stewart, e a reação no rosto do personagem. Essa dualidade entre visão e reação que compõe o ato voyeurista. A pulsão do olhar, que é também uma definição possível do cinema. Por isso, Janela Indiscreta é um dos filmes preferidos dos cinéfilos, cineastas… e psicanalistas. Porque fala deles e do seu desejo. Aquilo que os freudianos identificam com um dos “instintos” mais poderosos – o da visão. Como se vê, Truffaut tinha razão. Janela Indiscreta é bem mais do que uma crônica do Village.

Ah, sim. Na novela de Cornell Woolrich apenas na última linha ficamos sabendo que a imobilidade do personagem se deve a uma perna engessada. Fato que a literatura podia esconder, mas o cinema não. E outra coisa, talvez não de todo inútil de lembrar. O próprio Truffaut, nas pegadas do mestre, se inspiraria em outra história de Woolrich para fazer seu próprio filme de suspense, A Noiva Estava de Preto, de 1967.

(Caderno 2, 27/9/08)