Inverno de Sangue em Veneza
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Inverno de Sangue em Veneza

Luiz Zanin Oricchio

01 de dezembro de 2013 | 14h19

Considerado um dos filmes de referência do cinema de suspense, Inverno de Sangue em Veneza, do britânico Nicholas Roeg, sai em DVD pela Versátil. Revisto, mostra que é mais do que um ótimo filme de gênero. Vai além. É baseado em conto de Daphne du Maurier, autora que fornece material a Rebecca – a Mulher Inesquecível e a Os Pássaros, ambos de Alfred Hitchcock. No caso, não é difícil supor que a versão cinematográfica seja superior ao original. Afinal, Hitchcock dizia ser sempre temerário adaptar obras-primas, dando preferência a livros medíocres – ao menos em sua opinião.

De toda forma, em Inverno de Sangue em Veneza, Roeg traz a história de um casal, John Baxter (Donald Sutherland) e Laura (Julie Christie), que, traumatizado pela morte acidental da filha, se estabelece na cidade italiana. As circunstâncias da morte da criança levam a uma soma de luto e culpa por uma hipotética negligência. Quem passa por uma experiência dessas fica marcado. E tenta se afastar do local para se recuperar e reencontrar o eixo. Veneza, portanto.

Lá, Baxter exerce sua profissão de restaurador de arte e Laura tenta assimilar a perda. Até que um dia o casal é abordado por uma médium cega que diz ter entrevisto a menina morta junto à mesa, e que “ela estava feliz”. Apenas um tanto aflita porque o pai corria perigo.

É o que basta para acabar com o pouco de tranquilidade que John e Laura poderiam ter. Porque ele não acredita absolutamente nesse tipo de coisa, e ela, apesar de se dizer confortada pelas palavras da vidente, ficará mais fora do eixo do que nunca.

A história se torna interessante na medida em que Roeg não trilha o caminho fácil do sobrenatural e dos sustos de ocasião, que fariam de Inverno de Sangue em Veneza uma narrativa de suspense banal. Ele trabalha com ambiguidades e deixa entrever sempre uma causa natural para explicar o que está sucedendo. Ao mesmo tempo, esta revela-se sempre insuficiente para esclarecer tudo. Enfim, joga com a ambiguidade entre a fé e a descrença. Mais ainda porque John está restaurando o afresco de uma igreja e faz amizade com o cardeal da cidade. A Igreja não tem muita simpatia pelos médiuns e nem John acredita neles. Mas, para Laura, a crença torna-se uma tábua de salvação.

Ainda mais estimulante que o enredo é o procedimento cinematográfico de Roeg, que utiliza muito bem o cenário natural de Veneza como apoio ao clima de suspense. Esta é uma cidade apropriada ao mistério. Seu emaranhado de ruas e pontes, canais, praças e pracinhas (que eles chamam de “campi” ou “campieli”) formam um dédalo no qual é quase impossível um forasteiro deixar de se perder. Mas, na situação descrita, isso significa apenas um terror a mais. Esse fator de perda de referência e o uso do claro-escuro pela câmera são muito bons.

Aliás, usando os recursos da fotografia e da montagem, Roeg cria um clima visual que torna crível o que poderiam ser interpretados como fenômenos de paranormalidade. Nunca é apelativo e, por isso, evita o ridículo que ronda histórias do gênero, em especial quando o espectador não é crédulo ou trouxa. Joga com a ambiguidade, sempre a carta mais certeira para esse tipo de situação. Mas poucos cineastas dominam essa arte.

Sutherland e Christie compõem um casal interessante. Intenso, sem ser impositivo. E as cenas íntimas entre os dois, que na época pareceram ousadas, hoje passam por tímidas. Ou singelas, vá lá. Em entrevista nos extras do DVD, Sutherland mata a charada. Na verdade, não se trata de uma cena de sexo, pura e simples. É a cena de um casal tentando reencontrar sua intimidade após haver passado por uma experiência trágica. Na verdade, a tragédia da morte da filha continua entre eles, daí a hesitação, a delicadeza talvez excessiva do ato. Essa é a funcionalidade narrativa da famosa cena de sexo filmada num quarto de hotel.

A verdade é que a cidade de Veneza assume, muitas vezes, a função de protagonista. Talvez a Serenissima nunca tenha sido tão bem filmada, e explorada em suas possibilidades cênicas, com a exceção excepcional de Morte em Veneza (1971), que Luchino Visconti adaptou da novela de Thomas Mann. Neste caso, desmentindo o vaticínio e o conselho de Hitchcock. Mas Inverno de Sangue em Veneza não fica atrás. É o melhor filme de Roeg, cineasta às vezes subestimado.

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