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Intelectuais, ainda

Luiz Zanin Oricchio

02 Novembro 2006 | 13h41

Recebi muitos comentários no post O intelectual morreu? Na impossibilidade de comentá-los um por um, faço algumas colocações de ordem geral nesse novo post.

1) Acho mesmo que há uma falta de foco na questão trabalhador intelectual x intervenção na coisa pública. Mesmo porque não sabemos mais de forma clara como a reflexão interfere no real. No caso de Zola, em 1898, isso era mais evidente. Um artigo comoveu a opinião pública e produziu seus efeitos. As sociedades tornaram-se muito mais complexas e teríamos hoje dificuldade até para definir o que seja a tal da opinião pública.

2) Na falta desse foco, elegemos um intelectual-padrão e o usamos como exemplo para mostrar que a realidade hoje é outra e pede novas considerações. No caso, o intelectual seria Sartre, por exemplo, e essa figura emblemática é dada como morta por gente como Bernard-Henri Lévy, biógrafo do mesmo Sartre e intelectual ele próprio, inclusive com coluna semanal de assuntos políticos na revista Le Point.

3) Sartre teria sido “o último intelectual” de um século que começa em Zola e termina nele, simbolicamente, vendendo na rua o jornal maoísta La Cause du Peuple. Tudo isso aponta para uma direção: com o refluxo das utopias de esquerda, o intelectual teria deixado de existir. Como se houvesse a equação necessária intelectual = esquerda, o que é falso. Basta lembrar, na França, o prolongado debate entre o próprio Sartre e seu companheiro de estudos Raymond Aron, de direita.

4) De qualquer forma, após os anos 1980, houve mesmo um recrudescimento do antiintelectualismo, disseminado em toda a sociedade, no Brasil inclusive e talvez principalmente. A idéia é que pensar criticamente cansa. E quem se opõe a um confortador “pensamento único” moderno é um chato em potencial. Um estraga-prazeres da nova ordem. Daí a impressão de que o intelectual tenha entrado em recesso quando, a meu ver, o que se criou foi uma disposição da sociedade contrária ao pensamento crítico, para não dizer dialético, que é um termo expurgado.

5) De certa maneira, estamos entrando em outro estágio, que ainda não compreendemos muito bem, e que vai pedir uma redefinição do intelectual e seu papel social. Refiro-me à internet e aos blogs, que podem ter democratizado o pensamento assim como democratizaram a asneira e o insulto. Blogs e sites abrigam análises e opiniões que vão do melhor ao mais disparatado, como sabemos todos. Garimpa-se nessa babel coisas muito interessantes e quem acompanhou as últimas eleições pelos blogs sabe do que estou falando.

6) O intelectual morreu? Longe disso. Pode ter morrido aquele guru a quem acorríamos em busca de certezas. O intelectual talvez se tenha pulverizado no delírio de opiniões que compõe a rede. Seu desafio, hoje, é trazer uma palavra certeira e serena, que possa ser ouvida em meio à balbúrdia. Estamos ainda aprendendo.