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Diário da Itália (8) Inju, The Burning Plain, Valentino

Luiz Zanin Oricchio

30 de agosto de 2008 | 10h56

VENEZA – A primeira vaia do festival veio para Inju, filme de gênero de Barbet Schroeter. E mesmo The Burning Plain, a tão aguardada estréia na direção de Guillermo Arriaga (ex-parceiro do seu conterrâneo Alejandro González Iñarrítu) não produziu o efeito que se esperava, mesmo não sendo mau filme. Aliás, é até bem interessante.

The Burning Plain é uma daquelas costumeiras histórias que se desenvolvem paralelamente para se cruzarem no fim, típicas da escrita de Arriaga. O espectador tem de aceita um vai e vem no tempo, que o deixa perdido no início. Até começar a ver como se entrelaçam as vidas daqueles personagens. A protagonista (se é que existe uma, num filme de vocação coral) é Sylvia (Charlize Theron), empregada em um sofisticado restaurante de Portland, mas que parece ter contas a ajustar em seu passado. Na história de Arriaga há traições conjugais, ciúmes fatais de filhos em relação aos pais e um duro papel atribuído a Kim Basinger, o de uma mulher marcada por uma doença grave, que está tendo um caso fora do casamento com um homem compreensivo (Joaquim de Almeida).

Sobre sua opção estética de trabalho com o tempo, presente nesta estréia na direção e nos três filmes que roteirizou para Iñarritu (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), Arriaga disse que nada mais faz que reproduzir a maneira como as pessoas contam suas histórias, de maneira não-linear. “Existe esse preconceito de que a maneira normal de narrar é linear, quando o que ocorre é o contrário. As pessoas vão e vêm no tempo, fazem digressões, comentam o que dizem, etc; basta reparar”. Além disso, queixa-se de que quando tentam compará-lo a alguém, falam em Tarantino ou Altman. “Esquecem de que Godard sempre fez isso e Kurosawa, em Rashomon, contou a mesma história sob diferentes pontos de vista”. O roteiro de fato é muito engenhoso, inclusive em sua estratégia de só entregar a verdade (ficcional) ao espectador quando o filme já está bem avançado.

Falta, no entanto, um toque mais enérgico, um envolvimento plástico mais agudo – aquele mesmo que suas histórias tinham quando filmadas por Iñárritu. Acontece que os dois brigaram para valer e não se falam. Quando lhe perguntam sobre esse passado recente de roteirista de Iñárritu, Arriaga é elegante: “Ele dirigiu três grandes filmes; agora cabe a mim o desafio como cineasta”.

O longa de Arriaga pode não ser tudo o que se esperava do début de um grande roteirista, mas o Schroeder já provoca no Lido aquele tipo inevitável de pergunta: o que um filme como esse está fazendo num festival como o de Veneza? É que talvez não se aceite tão bem o jeito um tanto paródico como ele enfrenta a adaptação de um escrito cult japonês, Taro Hirai. Na história inicial, havia o confronto rival entre dois autores japoneses de histórias de detetive. Na versão de Schroeder, um desses escritores é o best seller francês Alex Fayard (Benoit Magimel), especialista na obra de um japonês misterioso, Shundey Oe. Alex vai até o Japão para lançar um livro e a viagem o mergulha numa escalada de sexo, violência e sado-masoquismo, com direito a um desfecho surpreendente. O que incomoda é o tom de artificialidade do filme, que não contribui em nada para tornar crível uma trama descabelada e, no fundo, meio sem sentido. Não por acaso o filme foi vaiado (italiano vaia fazendo bu!) e a sala de entrevistas coletivas, lotada até a tampa para Charlize Theron, estava às moscas na de Schroeder, Magimel e o elenco japonês do filme.

Também não se pode dizer que a coletiva do brasileiro José Mojica Marins tenha provocado comoção no Lido. Mas pelo menos foi mais divertida. Mojica, o Zé do Caixão, contou à platéia escassa porém atenta, o que havia sido a saga para realizar Encarnação do Demônio, o desfecho da trilogia do seu personagem. Só que foi tão caudaloso em sua narrativa, que quase não houve tempo para perguntas. Segundo informações, a primeira sessão, realizada na Sala Grande às 9h da manhã, teve platéia apenas razoável, composta pelo público de sempre, interessado em filmes de terror. Existe isso, uma espécie de Internacional Cinéfila do Filme de Horror. Zé do Caixão está nesse nicho. A sessão para o público estava prevista para a meia-noite de ontem. Horário mais adequado porque, francamente, Zé do Caixão logo de manhã cedo, com suas torturas “artesanais” e insetos rastejantes, não é para qualquer estômago.

No final da coletiva de Mojica, uma surpresa: estava presente o escritor Fernando Bonassi, que foi logo se queixando de que a imprensa pátria havia comido mosca: “Há dois roteiristas brasileiros presentes na disputa ao Leão de Ouro”, disse. Quem? Ele próprio, que é co-roteirista de Plastic City, com Yu Lik-Wai e Liu Fendou, e Luis Bolognesi, também no Lido e prestigiando a coletiva de Mojica, que co-assina o roteiro de Birdwatchers com Marco Bechis, o diretor do filme.

Valentino

Agora, quem recebeu uma grande ovação, levando o público da sessão de gala na Sala Grande a um aplauso em pé de vários minutos, foi o costureiro Valentino, personagem do documentário do norte-americano Matt Tynauer. Havia um difuso temor de reação contrária ao filme, afinal Veneza sempre passou por festival politizado, e com tendência à esquerda, e poderia não ver com bons olhos a celebração de um deus da moda e do supérfluo. Bobabem. Politização é coisa do passado ou, pelo menos, na Veneza atual Valentino pode muito bem conviver com o enragé Píer Paolo Pasolini, de quem se exibiu um documentário apropriadamente chamado de La Rabbia (A Raiva).

E Valentino – o Último Imperador não é mesmo mau filme. O tom, claro, é reverente, mesmo porque para se obter o aval de documentar o cotidiano e contar a história de um figurão desse porte, algumas concessões devem ser feitas. Mesmo assim, Tynauer mantém um certo grau de ironia e distanciamento que, bem discreto, empresta dignidade ao seu projeto. Por exemplo, usa, de maneira intensiva, as trilhas sonoras de Nino Rota, na origem compostas para os filmes de Federico Fellini. Há uma desculpa para isso, porque Valentino evoca imediatamente a Dolce Vita registrada para sempre numa das obras-primas de Fellini. Aliás, algumas imagens do filme são usadas no documentário – em especial as de Marcello Mastroianni na Via Vêneto, onde ficava o ateliê de Valentino.

O filme tem um lado, digamos, didático, informando dos passos dessa carreira que começa lá atrás, nos anos 60 e se estende até a festa grandiosa no Coliseu de Roma, onde Valentino faz seu último desfile, colorindo o monumento romano com o vermelho que é sua marca registrada e fogos de artifício. Uma festa para a eternidade, conforme se diz. Mas há a câmera da intimidade, aquela que acompanha o designer em momentos de descontração e de tensão. E que o registra perdendo a paciência e brigando com auxiliares – e mesmo com o companheiro de mais de 40 anos, Giancarlo Giammetti. Fora esses momentos, Valentino é uma esfinge, o rosto impassível, o andar estudado, os gestos medidos. Mas há outro momento em que ele fraqueja. É quando recebe a Légion d’Honneur e a dedica ao companheiro. Nesse momento os olhos brilham, a voz tremula. Autocontrole também tem limite.

Há outro dado interessante no filme, quando se pergunta o que move Valentino. Ele não hesita: “a beleza”. Talvez nunca tenha se preocupado em definir essa entidade, que quebrou a cabeça de muitas gerações de filósofos. A beleza está nas mulheres elegantes, nas estrelas de cinema, nos salões, nos tecidos refinados. Está em seu palácio parisiense, suntuoso a ponto de lembrar uma réplica menor de Versalhes. Até mesmo nos cachorrinhos que o acompanham em toda parte e viajam em seu jatinho particular. Há empregados que tratam da matilha e escovam até os dentes dos bichinhos.

“O filme mostra quem eu sou”, disse um orgulhoso Valentino. Não há por que duvidar. Mesmo que arestas e incongruências estejam bem maquiadas, elas são quase evidentes para quem tem olhos para vê-las.

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