As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Infância Clandestina

Luiz Zanin Oricchio

08 de dezembro de 2012 | 12h09

Há um parentesco óbvio entre o filme argentino Infância Clandestina, de Benjamín Ávila, e o brasileiro O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer. Ambos filtram os anos de chumbo de ditaduras militares latino-americanas por olhares “inocentes” das crianças. Filhos de militantes que ou não entendem, ou entendem apenas em parte, as circunstâncias das lutas em que seus pais estão metidos. Ambos são ótimos filmes, diga-se de passagem.

Infância Clandestina é tão bom que, vindo de uma cinematografia bastante badalada como a atual da Argentina, foi escolhido por seu país para representá-lo no Oscar. Em seu tempo, o filme de Hamburguer também foi designado pelo Brasil anos atrás. Parece haver, entre as comissões de seleção, a consciência de que o olhar infantil seja um fator que pode comover os tais “velhinhos da Academia”. No caso do brasileiro não deu certo. Em janeiro veremos se o argentino tem mais sucesso.

Aliás, Brasil e Argentina são coprodutores de Infância Clandestina. A presença do País no longa hermano se dá de maneira marcante. O paulista Marcelo Müller é corroteirista, junto com o diretor Benjamín Ávila. Eles foram colegas na Escuela de TV y Cine de San Antonio de los Baños, em Cuba. Dois atores brasileiros – a paraibana Mayana Neiva e o paulista Douglas Simões – juntaram-se ao elenco.

E o Brasil é o país por onde passa a família de montoneros, exilada em Cuba, que decide haver chegada a hora de regressar à Argentina para participar da luta contra a ditadura militar. São eles, o pai (Cezar Troncoso, de O Banheiro do Papa), a mãe (Natalia Oeiro), o menino Juan (o ótimo Teo Gutiérrez Romero), e mais o tio Beto (Ernesto Alterio). Uma família clandestina, que se esconde atrás da fachada inofensiva de uma fábrica de doces, que fabricam e vendem. O próprio menino terá de mudar de nome – de Juan torna-se Ernesto –, além de arrumar sotaque de quem é proveniente de região de Córdoba.

Ávila conta que se inspirou na própria experiência de vida para escrever essa história. Ele mesmo foi filho de uma “família clandestina”, que lutou contra a ditadura militar argentina e teve de exigir sacrifícios dos seus filhos. Sua mãe, Sara, foi presa e “desapareceu” em 1979. Ávila conhece na pele, portanto, o duro que é viver escondido, sob nome falso e ameaça constante das forças da repressão, com a morte sempre rondando por perto. E, nesse ponto, o longa argentino é bem diferente do brasileiro. Se em O Dia em que Meus Pais Saíram de Férias a ditadura é apenas pano de fundo insinuado, em Infância Clandestina as circunstâncias da política latino-americana dos anos 1970 aparecem de frente, e sem disfarces, com toda a sua violência. É, nesse sentido, um filme mais político e mais engajado.

Mesmo porque – e esse será um desafio para convencer o pessoal da Academia de Hollywood – a luta guerrilheira aparece sem meios tons. E sem qualquer sentimento de culpa, mesmo quando envolve crianças inocentes. Há um diálogo duro entre a mãe do menino e a avó. Ela diz que, se o pior acontecer, ela prefere que o menino seja criado pelos companheiros do que por uma carola como ela. Essa guerrilheira, tão dura como bela, é uma das figuras fortes do filme. Aliás, figuras fortes não faltam a esse drama bem construído.

O elenco é o ponto alto. O uruguaio Cezar Troncoso é muito convincente como o pai. O garoto também passa muita verdade (e Deus sabe como é difícil dirigir crianças), além da comovente figura do tio Beto, composto por Alterio de maneira tão humorística quanto trágica. De certa forma, há um antagonismo entre o pai do garoto e o seu irmão, Beto. O pai é um radical realista. O tio, uma espécie de sonhador da luta armada, e não no sentido negativo do termo. É homem cheio de imaginação e compaixão humana, que terminará vítima de suas melhores qualidades. A relação dele com o garoto é muito afetuosa e não se restringe ao campo da política. Pelo contrário, para o menino, o tio passa a ser um conselheiro sobre o segredo das mulheres, que ele parece conhecer muito bem – pelo menos é o que passa pelo imaginário do garoto.

Benjamín Ávila não faz de Infância Clandestina um filme apenas Mescla circunstâncias históricas à vida afetiva dos personagens. Em especial à do garoto Juan/Ernesto que, aos 11 anos, e apesar da precariedade de sua vida, começa a descobrir um estranho encantamento por uma colega de escola. Nessa alternância sensível entre o pessoal e o histórico está um dos segredos desse filme, exemplo de como ser duro sem deixar de ser delicado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.