Indiana Jones muda para permanecer igual
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Indiana Jones muda para permanecer igual

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2008 | 12h53

indy

Vamos admitir: a historinha não difere muito das dos outros três filmes da série. Indiana Jones se põe a campo atrás de uma relíquia poderosa, que pode mudar os destinos do mundo. Passa por perigos extremos, alia-se a alguém para combater os inimigos, apanha muito e no fim… Você já sabe. Se viu (e quem não viu?) os outros três – Os Caçadores da Arca Perdida (1981), O Templo da Perdição (1984) e A Última Cruzada (1989) – sabe mais ou menos o que esperar. Trama rala no meio, muito perigo e ação, e certo sentimentalismo para dar liga à maionese.

De qualquer forma, entre os fãs é grande a expectativa em torno deste Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Sentimento criado em quase 20 anos de espera desde a última aventura. Assim, é compreensível, do ponto da indústria, que não se deve mesmo decepcionar a multidão de seguidores. O que significa dar a eles mais do mesmo, mas com alterações que dêem ao produto que chega a aura de novidade. Assim, guardadas as devidas proporções, a indústria cultural segue a recomendação de um dos personagens de O Leopardo, romance do siciliano Tomasi di Lampedusa – é preciso que tudo mude para que tudo continue igual. Essa frase da astúcia política da grande ilha ao sul da Itália poderia também servir como divisa da sabedoria econômica da indústria do entretenimento.

E o que mudou para que tudo permanecesse o mesmo em Indiana Jones? Primeiro, a inevitável passagem do tempo no mundo das coisas reais. Se é impensável fazer um Indiana Jones sem Harrison Ford, então é preciso enfrentar o fato de administrar um herói de ação de 65 anos. Nada que plásticas, botox ou photoshop não resolvam, junto a dublês em cenas de esforço e risco. Para justificar essa passagem do tempo, a ação é trazida para 1957, época da Guerra Fria. Saem de cena os nazistas, entram os soviéticos. A vilã – de opereta – é uma certa Irina Spalko, vivida pela múltipla Cate Blanchett. Como de hábito, não se esperem sutilezas políticas de Indy. A caricatura daí resultante passa pelo humor. E humor é também o que ajuda a constatar sem muita dor a passagem do tempo e o envelhecimento (embora este seja sistematicamente negado quando o comportamento físico do sexagenário se equipara ao de um jovem de 20 anos).

Para equilibrar o protagonista geriátrico, entra em cena um sub-herói jovem, Shia LaBeouf como o motoqueiro Mutt Williams, com ar de James Dean. E, para reequilibrar a balança em sentido contrário, ressurge uma mulher, Marion Ravenwood (Karen Ellen), vinda do passado de Indy. É até simpática a encenação de reunião familiar em plena selva amazônica, lembrando-se que relações familiares são a verdadeira questão de fundo de Spielberg, seu bombom favorito, seu rosebud. Com esse filão, conquistou o público do planeta, já que problema de família todo mundo tem.

No mais, já que ninguém é de ferro, houve a inevitável atualização tecnológica, com farto uso de efeitos digitais, como em qualquer blockbuster. A pergunta que resta: como cinema-pipoca, é divertido? É, mas Caçadores da Arca Perdida era mais.

(Caderno 2, 22/5/08)

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