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Incuráveis

Luiz Zanin Oricchio

14 Novembro 2006 | 19h25

Amigos e amigas, eis aí a crítica que escrevi para o Caderno 2 sobre o filme Incuráveis, de Gustavo Acioli.

A situação depurada em que o sexo tenta se isolar de qualquer interferência externa é tema dos mais interessantes, cujo exemplo famoso seria o de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. O quadro é mais ou menos o mesmo em Incuráveis: um homem e uma mulher que transam sem sequer saber quem é o outro, de onde vem, o que faz na vida, para onde vai. Importa purificar o sexo de tudo aquilo que, em tese, possa perturbá-lo, como considerações de ordem social, compromissos ou mesmo o nome do parceiro. Mas isso é uma armadilha, pois sexo só é anônimo quando reduzido a relação comercial. Se ultrapassar essa condição, por pouco que seja, já virou outra coisa.

Essa longa noite de angústia e loucuras tem um mérito, nada desprezível em se tratando de cinema brasileiro: deixa muito do que quer dizer entre parênteses, lacunas a serem preenchidas pelo espectador. Assim fazendo, destoa, no sentido positivo, da média do cinema nacional, sempre ávido por se fazer compreensível à primeira vista, como se tivesse dúvidas a respeito da inteligência do espectador. Não é banal: apresenta mesmo uma virada interessante, ao sugerir que o personagem masculino se projeta no feminino como se desejasse estar em seu lugar, o que é uma fantasia recorrente.

Tanto Eiras quanto Dira estão ok. Ele chegou inclusive a ganhar o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília do ano passado por este trabalho. O problema desses dramas intimistas, e que permanece um desafio constante para os diretores, é dosar a progressão dramática posta em cena. Nem sempre isso acontece a contento, o que produz alguma oscilação na atenção que se dedica ao filme, que fala de amor mas também de desespero.

Uma situação como esta deveria, é o que se imagina, tender ao paroxismo, a cada degrau. No entanto, há freios: tudo parece um pouco pudico demais, asséptico demais, em que pese a boa fotografia de Lula Carvalho, que sabe compor em luz e cor o ambiente onde o casal passa a maior parte do tempo. Há uma opção pelo não-realismo da história, escolha que cobra seu preço nesse filme sincero e bem-feito.

(SERVIÇO)Serviço Incuráveis (Brasil/2006, 81 min.) – Drama. Dir. Gustavo Acioli. 16 anos. Unibanco Arteplex 4 – 13 h, 14h30, 16h40, 20h30, 22h10. Cotação: Regular