Incertezas críticas: a inteligência brasileira em ação
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Incertezas críticas: a inteligência brasileira em ação

Hoje, às 20h30 no Canal Curta, o primeiro episódio da série Incertezas Críticas, dirigida por Daniel Augusto, com o psicanalista Christian Dunker falando sobre as fake news e a lógica da exclusão da sociedade brasileira

Luiz Zanin Oricchio

12 de agosto de 2021 | 19h35

O diretor Daniel Augusto e o psicanalista Christian Dunker

Hoje, às 20h30, no Canal Curta!, o psicanalista Christian Dunker dá início à 3ª temporada de Incertezas Críticas, série concebida, escrita e dirigida pelo cineasta Daniel Augusto. A série pode ser vista também no streaming pelo site curtaon.com.br.

Nesta temporada, apenas pensadores brasileiros formam o elenco. Além de Dunker, teremos mais 12 nomes de relevo da intelligentsia nacional. Pela ordem, Paulo Arantes (19/8), Eduardo Viveiros de Castro (26/8) Djamila Ribeiro (2/9), Renato Janine Ribeiro (9/9), e, em seguida, Marilena Chauí, Olgária Matos, José Miguel Wisnik, Ismail Xavier, José Arthur Giannotti, Raquel Rolnik, Maria Rita Kehl, Peter Pál Pelbart. 

São entrevistas breves, de cerca de 27 minutos, iluminadoras, curiosas. Não me atrevo a resumi-las, pois são de uma riqueza que exigiria muito texto para comentar, ainda que de maneira ligeira. Limito-me a destacar alguns pontos. 

Na fala inicial desta temporada, temos uma rara combinação de psicanalista e analista social. Dunker, entre muitas observações pertinentes, destaca temas como as fake news e a “lógica de condomínio”, instaurada no início dos anos 1970. As fake news, já sabemos, colocaram em xeque a noção de verdade, de uma maneira que Nietzsche jamais imaginaria. 

Já a lógica de condomínio é coisa nossa.  Funciona assim: “O Brasil deu errado. E já que não vai dar para conversar com todo mundo, por que a gente não faz um mini Brasil? E aí vai dar certo. A gente excluiu, invisibilizou, patologizou essas formas de vida que trazem problema”. Ou seja, a gente cria um Alphaville, se separa do resto que nos causa incômodo ou medo, e seremos felizes para sempre. Brasil, país da exclusão. 

Paulo Arantes aborda um conceito que lhe é caro, o de “formação”, devido a Antonio Candido. Aliás, seu livro mais recente se chama Formação e Desconstrução: uma Visita ao Museu da Ideologia Francesa (Duas Cidades, Editora 34). Tem feito incontáveis “lives” a respeito. 

O antropólogo Viveiros de Castro aborda um viés em geral ignorado em filmes ecológicos: a degradação do planeta está ligada de maneira indissociável à lógica capitalista do crescimento contínuo e infinito. O capital não pode parar de se expandir; precisa criar novos mercados, novos consumidores, novas necessidades e desejos. Só que o planeta não aguenta e essa é a sua contradição fundamental. Não pode se sustentar sem se autodestruir. Não depende da boa vontade das pessoas, da educação das crianças ou de qualquer ato de bom senso pessoal – esta é a lógica de autocombustão do sistema econômico. 

A filósofa Djamila Ribeiro concentra-se nas questões identitárias e temas sobre os quais reflete e escreve – entre eles, a noção, segundo ela mal compreendida, de “lugar de fala”. 

Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e atual presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), fala sobre um tema que lhe é habitual, e fundamental para os nossos tempos – a boa política, sobre o qual escreveu um livro com esse mesmo título. 

Com Marilena Chauí temos uma inabitual reflexão sobre seu percurso de estudante, do secundário à Filosofia da USP e à temporada de estudos na França. Fala, é claro, dos seus filósofos de referência, Espinosa e Merleau-Ponty. 

Ismail Xavier, nome de ponta na reflexão cinematográfica do País, mostra que suas referências vão além do campo específico do cinema, remontando ao pensamento seminal do crítico Antonio Candido e à influência de Paulo Emílio Salles Gomes. 

A arquiteta Raquel Rolnik, a psicanalista Maria Rita Kehl e o filósofo de origem húngara Peter Pál Pelbart completam o time. 

Permitam-me insistir: num momento em que a boçalidade ameaça nos jogar no abismo, só o pensamento pode nos salvar. Essa série filosófica é um ato civilizatório.