As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Imprevista beleza

Luiz Zanin Oricchio

14 de abril de 2009 | 12h02

O que houve de incrível no gol de Neymar é que ele foi comemorado antes de acontecer. No estádio, de certo ângulo, deu para ver que a bola, chutada devagarinho e colocada, iria entrar. E que Marcos, pego no contrapé, não iria chegar. Aliás, ele nem foi na bola. Ficou estático. Esse tipo de lance, pela imprevisibilidade, eu diria até mesmo por seu caráter de exceção poética, cria grande sensação de beleza. É algo que destoa do comum, do ordinário, do esperado. Um relâmpago em céu azul.

Já o gol de Miranda seguiu script mais do que conhecido. Jorge Wagner cobra uma falta na lateral do campo, levanta a bola na área e alguém surge para cabecear. A frequência com o que o São Paulo tem resolvido seus jogos com esse lance repetido chega a ser alarmante. Ou a jogada não pode ser anulada ou as defesas adversárias dão prova de incompetência total. De qualquer forma, é a jogada de gol mais manjada do mundo. E, previsível que seja, vale tanto quanto o imprevisível gol de Neymar, ou qualquer outro. Futebol é bola na rede, na frase original que acabo de cunhar.

O futebol, como alguns outros jogos desta vida, é feito de uma nem sempre clara mescla do que se pode prever e do que não se pode. Daí seu encanto.

De qualquer forma, os eletrizantes jogos semifinais do Campeonato Paulista são frutos dessa imponderabilidade. No primeiro houve o gol de Neymar, na verdade coroando toda uma boa atuação do garoto, que negara fogo em partidas anteriores. Mas, sobretudo, houve a boa postura do Santos, que entrou como patinho feio na reta final e pode sair como cisne, ou ganso, desalojando o (ainda) favorito Palmeiras.

Já Corinthians e São Paulo não fizeram o jogo amarrado que se imaginava por serem dirigidos por treinadores “cascudos”, pragmáticos e conhecidos por não darem a menor pelota para essa ficção romântica de futebol-arte ou de espetáculo. Querem ganhar, e ponto. Como as circunstâncias do jogo são às vezes mais fortes do que as determinações dos professores, a partida fluiu com muita energia. E, aos 48 minutos do 2.º tempo, o Imponderável da Silva fez com que um belo chute do volante Cristian se alojasse no canto de Rogério Ceni, determinando a vitória do Corinthians.

Para quem não dava nada pelo campeonato, esses dois primeiros jogos falam por si mesmos. Foram soberbos.

A SAÚDE DO IMPERADOR

Diz um personagem de Jorge Amado que a verdade mora no fundo de um poço. Pois eu digo que a verdade de cada um mora ainda mais abaixo e às vezes é insondável até para nós mesmos. Assim, acredito que tudo o que se disser sobre Adriano será chute. E não um daqueles chutes certeiros do Imperador, quando andava em boa fase. Será chute torto, dos que mandam a bola na bandeirinha de escanteio. Muita gente já se apressou em dizer que ele está doente. E por quê? Porque parece esnobar tudo aquilo que é objeto de desejo de 100% dos jogadores e motivo de admiração de boa parte da população brasileira. Adriano ganha salário de sonho, mora em Milão… e diz que não está feliz. Prefere a companhia da sua gente num bairro muito pobre do Rio de Janeiro. É tão absurdo, dizem, que ele só pode estar doente. Doente, para não dizer pior, porque sua atitude contraria as nossas expectativas mais arraigadas: que o dinheiro diz sempre a última palavra, que a verdadeira vida está no Primeiro Mundo e não neste pedaço atrasado do planeta, etc. Sei lá quais são os problemas de Adriano e ele deve tê-los aos montes, como qualquer pessoa. Mas desconfio que, nesse particular, ele esteja mais sadio do que nós todos juntos.

(Coluna Boleiros, 14/4/09)

Tendências: