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Impasses do cinema brasileiro

Luiz Zanin Oricchio

21 de maio de 2010 | 12h07

No começo dos anos 1990 o cinema brasileiro estava entregue a si mesmo. Com o desmanche da era Collor, foi jogado à arena do mercado e por pouco não sucumbiu. A mensagem do então presidente e seu escudeiro Ipojuca Pontes era clara. Se o cinema nacional for importante para o povo brasileiro, este virá em seu socorro na única esfera reconhecida pela doutrina neoliberal – o mercado. Ninguém fez um gesto; ninguém deu um pio.

Foi preciso que Collor caísse para que se tornasse viável uma série de medidas de incentivo conhecidas sob o rótulo geral de “retomada do cinema brasileiro”. Essa fórmula, de tom salvacionista, se compunha de incentivos pontuais, como os concursos “de resgate”, e medidas institucionais, sob a égide das leis de incentivo.

Vinte anos depois, o panorama parece muito diferente, por um lado, e muito parecido, por outro. Se naquela época, antes do socorro, o Brasil limitou-se a produzir apenas dois ou três títulos por ano, hoje chega a 80, 90, tendendo aos cem. Naquele tempo, o público era quase nulo. Hoje mantém média de uns 10% do mercado anual. Não avança e nem recua, fora um ano excepcional (2003) quando bateu nos 23%. Exibe uma razoável diversidade de títulos, comédias e obras intimistas, muitos documentários, um ou outro filme de apelo popular e alguns de alto significado artístico. Os festivais de cinema, que se podiam contar nos dedos da mão no começo dos anos 1990, hoje passam de 200. Há mais salas de exibição, mais movimento econômico nos laboratórios e nos escritórios de organizadores de eventos. Enfim, a atividade, se não floresceu de maneira espetacular, pelo menos parece muito mais saudável do que naqueles anos de triste memória.

E, no entanto, podemos imaginar: e se chegasse hoje ao poder um novo Collor, conseguisse revogar as leis de incentivo e jogasse de novo o cinema no circo romano das forças de mercado, o que aconteceria? Teríamos um grande movimento em defesa do nosso cinema? O golpe geraria editorais indignados na imprensa, haveria passeatas, artigos de especialistas, choro e ranger de dentes? Duvido. Fora nós, que sempre estivemos convencidos da necessidade da existência de um cinema brasileiro, quem viria em socorro dele? Suspeito que ninguém.

A constatação é dura, mas tem de ser feita: depois de 20 anos, o cinema brasileiro ainda é incapaz de mostrar ao seu público potencial que ele é indispensável, item fundamental da nossa cultura, o nosso espelho, a maneira como enxergamos a nós mesmos, etc. Tudo isso que nós (e apenas nós) vivemos dizendo e repetindo, convencendo a nós mesmos (ou seja, aos já convertidos) da veracidade das nossas razões, mas a mais ninguém.

Não que essas afirmativas não sejam pertinentes, ou pelo menos muito razoáveis. Os que sabemos da importância política (sim, política) da sobrevivência dos cinemas nacionais, bem  entendemos a necessidade de protegê-lo da concorrência predatória. Certo. Mas, e quanto ao público em geral? Será que ele está muito preocupado com isso?

Vejo motivos para inquietação. Primeiro, porque o cinema brasileiro não conseguiu pôr um ponto final numa situação emergencial (a tal da “retomada”) e dar um passo adiante, rumo a uma política cultural digna desse nome. O exemplo foi o abortado debate pela Ancinav, que terminou em recueta vergonhosa, sem que sequer as ideias fossem colocadas em pauta e discutidas, antes de serem descartadas. Tende-se então a eternizar uma situação provisória e torná-la definitiva, com todos os seus óbvios inconvenientes (diretores de marketing das empresas dando pitacos nos projetos parece o menor entre eles).

Mas o fato principal é que a relação com o distinto público continua complicada. Este costuma prestigiar de preferência produtos que poderia perfeitamente estar vendo na TV. São os mesmos atores, as mesmas atrizes, as mesmas histórias, a mesma estética, tudo igual. Mais do mesmo transposto da tela pequena para a tela grande.

Já quem destoa dessa mesmice parece se conformar com fatias mínimas de público, ou com o sucesso enganoso nos festivais, que funcionam da mesma forma que tapinhas nas costas dados por amigos fiéis. Quem freqüenta festivais sabe que filmes ovacionados, aplaudidos em pé e levados aos cornos da Lua pela crítica costumam decepcionar quando expostos ao público “normal” no circuito convencional de cinema. Isso quando chegam lá.

A mesquinhez da mentalidade vigente nesse circuito comercial justifica em parte essa dificuldade de contato com o público. Mas não explica tudo. Talvez fosse útil substituir a choradeira pela consciência de que essas dificuldades podem ser sinais de alerta a produtores e cineastas de que, talvez, eles não estejam conseguindo encontrar uma brecha na atenção do público. Na voragem de lançamentos característica do hipercapitalismo, não encontram um diferencial que faça dos seus filmes algo premente, indispensável e merecedor de atenção. Pode ser (é uma hipótese) que não estejam captando o espírito do tempo e suas necessidades. Não entram em sintonia com as aspirações do público.

Assim como os documentários, tão badalados por seus inegáveis méritos, mas que enfrentam dificuldades em se desvencilhar de fórmulas batidas, do culto aos personagens, das entrevistas, dos tipos humanos mais ou menos curiosos, da excelência da música, etc. Vivem também da constatação dos problemas sociais, sem enfrentar os dados estruturais que estão na origem dessas questões. Comentando os filmes de Fernando Solanas, que têm muitos problemas, são discursivos, etc, Jean-Claude Bernardet diz que, pelo menos, eles tinham a ambição de afrontar a estrutura do capitalismo, do mercado financeiro e do sistema industrial e político, ligando-os às contingências da história argentina. Aqui, nem se pensa nisso.

Claro que os que escrevemos sobre cinema somos parte do problema. Nunca antes nesse país houve tantos críticos de cinema, nem sua ressonância social foi tão pífia. Do exercício de uma cinefilia solipsista em seu esplêndido isolamento ao conformismo da função de indicadores de bons programas para a classe média, temos falhado em compreender os filmes em seu conjunto e relacioná-los a determinadas circunstâncias históricas. Esterilizados pelo pedantismo pseudo-universitário ou pela superficialidade de fornecedores de dicas de consumo, não temos desempenhado a função de provocar o debate cultural sobre as obras e, portanto, torná-las mais presentes e atuantes no imaginário social. Condenamo-nos à irrelevância.

Isso posto, pode-se concordar que a situação atual é muito preferível à do início dos anos 1990. Caminhamos. Mas também é óbvio que, em 20 anos, deveríamos ter avançado muito mais.

A modéstia das nossas ambições deve ser tema para debate.

(Originalmente publicado na Revista de Cinema, maio de 2010)

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