Imagem e palavra: a feroz juventude de Godard
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Imagem e palavra: a feroz juventude de Godard

Palavra e Imagem, o brilho da inteligência deste inventor de linguagens, jovem em seus 88 anos

Luiz Zanin Oricchio

17 de março de 2019 | 09h49

Um dos mais importantes cineastas contemporâneos, Jean-Luc Godard, tem se empenhado em fazer filmes que mais se assemelham a ensaios filosóficos, tratando da vida contemporânea e do papel do cinema num mundo visto como caótico. É o caso deste Palavra e Imagem, “tradução” de Le Livre d’Image, no original francês.

Digamos que existem dois caminhos, tão obrigatórios que se tornam clichês, ao observarmos os filmes de Godard. Primeiro, por sua complexidade, é um tanto difícil evitar a descrição em excesso, como se descrever fosse compreender ou analisar. Não é. Segundo, torna-se obrigatório dizer que a obra é aberta a várias interpretações, deixando implícito que cada um a entende como quiser. Não é bem assim, também.

Clarifiquemos: a descrição pode ser um primeiro passo (não obrigatório) para estabelecer certa ordem ao material e preparar uma análise ou interpretação. Não tem grande valor em si mesma. Pode ser meio e não fim. Segundo: a polissemia da obra moderna (vide Umberto Eco) é algo tão evidente que se torna um truísmo. Ainda mais quando essa polissemia é buscada e radicalizada, como em Godard. Mas isso não é desculpa para a anarquia interpretativa, para achismos e vale-tudo. A obra é aberta, mas merece respeito.  

Não é mesmo fácil situar-se diante de tal profusão de sons, imagens e palavras, montados de maneira a produzir centelhas de inteligência, mas que não se fecham em sentido único, jamais.

É muito esclarecedor, por exemplo, ver que o filme se inicia por uma espécie de “ode às mãos” e não ao pensamento. Contradição apenas aparente, no entanto, pois, como lá se diz, o homem é esse animal capaz de “pensar com as mãos”. É o que faz o pintor (a pintura é cosa mentale, dizia Leonardo), o escultor, o arquiteto. Mas também o escritor e, claro, o cineasta. Godard pensa com as mãos – e com os olhos, os ouvidos, o cérebro – ao manipular imagens, sons e pensamentos alheios, alterá-los e colocá-los numa disposição de reflexão geral sobre o mundo, e, nele, sobre as pessoas e as coisas.

Godard justapõe muitas imagens de filmes – inclusive dos seus próprios – a cenas documentais. Muitas cenas de guerra e sofrimento. A História do século 20, e a do 21, são sangrentas. Definitivamente, a civilização não triunfou.

O “mundo árabe” ocupa um longo lugar de destaque na parte final. Prova de que a velha questão “Oriente e Ocidente” retorna com força, como sabemos todos. “O Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente e jamais se encontrarão”, escrevia Kipling no apogeu do colonialismo. O que mudou?

Esta é apenas uma das inúmeras questões levantadas por este filme que fala da luta entre civilização e barbárie e encontra na arte um locus privilegiado, porém não idealizado. Lembrem da frase do próprio Godard: a cultura é a norma e a arte é a exceção; é próprio da norma matar a exceção.

Jean-Luc Godard, em sua feroz juventude de 88 anos, é esse cultivador de exceções. Utopias falidas, talvez, mas que movimentam o marasmo do fatalismo contemporâneo.  

 

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