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Ilha do Medo: um Scorsese de arrepiar

Luiz Zanin Oricchio

12 de março de 2010 | 08h34

Martin Scorsese não se contenta com pouco. Não há um filme seu que fale “apenas” da violência urbana, dos pequenos mafiosos ou do jogo em Las Vegas. Ele vê sempre além, mesmo que parte da crítica não consiga enxergar aonde ele quer chegar. Isso também faz parte da peculiar miopia típica de um tempo, o nosso, em que a banalização do “produto” cinematográfico já não permite mais compreender obras de exceção.

Assim, talvez, Ilha do Medo seja visto apenas como um thriller psicológico, mais ou menos eficaz, segundo o gosto do freguês. É muito mais que isso. Mas é também um thriller muito bem construído. A começar pela viagem no mar tempestuoso do detetive Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) rumo a Shuttle Island (título original), onde se encontra o complexo psiquiátrico chefiado pelo doutor Cawley (Ben Kingsley). É nessa ilha onde ficam os pacientes perigosos, num manicômio judiciário de alta segurança. Uma interna sumiu e Teddy, junto com seu auxiliar Chuck (Mark Ruffalo), tem a missão de encontrá-la. Tudo isso, os tons obscuros, o mar crispado e a desolação da ilha constroem um clima de arrepiar. Essa maneira de edificar uma história deve-se a um domínio cinematográfico completo. Mostra como é possível assimilar a cultura cinematográfica sem dela fazer um pastiche explícito, ou uma diversão inconsequente. Ilha do Medo, em vários momentos, parece o mais íntimo diálogo que Scorsese estabelece com Hitchcock, o mestre do gênero. Mas preenche a forma com as preocupações tiradas do seu universo pessoal.

Desse modo, Teddy será um personagem problemático desde as primeiras cenas ao enjoar com o mar revolto a caminho da ilha. Teddy aparenta ter todos os motivos, aliás, para ser atormentado. Perdeu a mulher num incêndio, que julga ter sido criminoso, iniciado por um piromaníaco. Há outro dado importante sobre ele, um pouco mais recuado no tempo: Daniels serviu na 2ª Guerra, estava entre os soldados que liberaram o campo de extermínio de Dachau e testemunharam o horror absoluto. O tempo presente do filme também não é dos mais solares – 1952, em plena vigência do macarthismo, a caça às bruxas de esquerda nos Estados Unidos.

É esse homem dividido, atormentado e inseguro de si mesmo que conduz a investigação de um caso difícil e, em aparência, inexplicável. O mais desavisado espectador compreende logo de saída que Teddy Daniels não procede como se tudo fosse exterior a ele; pelo contrário, sua trajetória parece muito mais árdua porque será a da investigação de si, em especial a da parte obscura que todos levamos dentro de nós.

Numa obra cuja linguagem às vezes roça o over, Scorsese explicita o que existe de dilacerante no personagem e em seu mundo: suas fantasias e obsessões pessoais, que aos poucos se tornam visíveis, e os horrores de um tempo (nazismo, macarthismo, a psiquiatria radical) e, na verdade, de todos os tempos. Pois se o nazismo foi extinto com o fim da 2ª Guerra Mundial, ele renasce ali onde uma etnia entende que é tão superior que deve extinguir as outras. Se a doutrina de McCarthy faz parte da história, ela também ressurge a cada vez que se cria uma paranoia para justificar medidas de força. E se a psiquiatria abrandou-se, os adeptos de intervenções orgânicas brutais sempre podem argumentar que a psicanálise está superada e os remédios são a solução definitiva para os “males da alma”. Para dizer em poucas palavras: a luta, em vários níveis, entre civilização e barbárie é permanente; é dela, afinal, que trata Ilha do Medo.

Tudo isso faz parte do universo pessoal de Scorsese, que pode ser observado em sua obra, filme após filme: a culpa, a presença do mal no mundo, a limitada capacidade humana de enfrentá-lo. E, por outro lado, o dever moral de encarar algo que, sabe-se de antemão, não pode ser eliminado por completo. É também o universo do autor do livro, Dennis Lehane, o mesmo de Sobre Meninos e Lobos, adaptado por Clint Eastwood.

É uma maneira especial de conceber o tema recorrente do mal no mundo, porque ele não se situa apenas do lado de fora, mas nos fustiga desde o mais profundo interior. Por isso, Daniels será um personagem atormentado e dividido. Como a história flui a partir do seu ponto de vista, será também um narrador pouco confiável à medida em que formos perdendo a fé em sua percepção e na isenção diante do que vê. Mas tudo permanecerá até o final em regime de ambiguidade, o que só fará aumentar o mal-estar de espectadores crentes num mundo seguro e unívoco. Essa estabilidade, apenas filmes mais simplórios podem nos dar. Scorsese não veio trazer a paz.

(Caderno 2, 12/3/2010)

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