As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Identificação de uma Mulher

Luiz Zanin Oricchio

21 de abril de 2008 | 09h46

Ontem, depois do jogo, descansei do futebol vendo Antonioni. Não o centro-avante; mas Michelangelo Antonioni, o cineasta, o próprio. Revi, em DVD, Identificação de uma Mulher, filme (descobri depois de começado) não via desde os anos 80, quando foi lançado (1982, para ser preciso). Que filme extraordinário!

Foi o último feito por Antonioni antes do derrame que lhe roubou a fala. Muitos anos depois faria outros, em parceria com Wim Wenders, e mais alguns curtas-metragens. Neste longa de 1982, ainda era o mestre, em plena posse de suas faculdades físicas e artísticas.

Leio na crítica italiana que o filme não é considerado um dos grandes de Antonioni, mas contém pelo menos uma seqüência de antologia – a da neblina. Dessa eu me lembrava. Mas não de como era longa e impressionante. O casal, no carro, em meio a uma densa neblina, que tira completamente a visão em meio a uma estrada. Algo de banal, mas usado num sentido alegórico muito palpável. Estamos em meio à névoa e nada mais enxergamos daquilo que nos cerca. Nada mais vemos sobre nós mesmos e muito menos sobre o Outro, na nossa frente. E é por isso que o personagem-cineasta (vivido por Tomas Millian) persegue cegamente um projeto de filme, que não consegue discernir. Corre atrás de uma mulher, que não consegue compreender. Assim como o Guido Anselmi, de 81/2, também não conseguia fazer o seu filme e usava o projeto fracassado como uma grande investigação acerca de si mesmo e de seus fantasmas.

Isso era do tempo em que o cinema pensava. O cinema, pensamento por imagens.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.