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Ideias fora do lugar *

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2012 | 10h01

Para a opinião pública, Felipão é um acerto. Para a opinião publicada, um retrocesso. Para os torcedores comuns, o Brasil precisa de um líder que conduza ao hexa. Os especialistas preferem quem leve a seleção pelo caminho da modernidade. Do que julga ser a modernidade, o paradigma atual do Barcelona. Daí o desencontro. Como a substituição de Mano por Scolari foi política e não técnica, a dupla Marin-Del Nero, que de boba não tem nada, olhou na direção da popularidade, que tira o foco de outras e mais graves questões. Daí o nome de Guardiola, tão insistentemente lembrado, não ter passado de leve devaneio de primavera.

Essa, como outras decisões no mundo do futebol, está aberta a controvérsias. Ninguém nega experiência à dupla Scolari-Parreira. Em certa medida, experiência é importante mesmo, ainda mais em situação-limite como costuma ser uma Copa do Mundo, quando qualquer descuido ou perda de concentração podem ser fatais. Lembrem o que aconteceu, por exemplo, na Copa de 1998, quando tínhamos tudo para ganhar a final e perdemos para um caso até hoje muito mal explicado. Enfim, um líder carismático (como Felipão) pode ser muito útil numa hora dessas.

Pensando de maneira menos pontual, parece lógico que a dupla não pode oferecer grande perspectiva de renovação tática. Embora tenham sido os dois últimos técnicos brasileiros campeões do mundo (Parreira em1994, Felipão em 2002), não têm convencido em seus últimos trabalhos. Parreira parecia ter um time de sonho na Copa de 2006 e deu com os burros n’água de maneira até patética. Depois do Penta, Felipão foi bem na direção de Portugal, mal na do Chelsea e acaba de contribuir para o rebaixamento do Palmeiras.

Os críticos têm alguma razão em colocarem um pé atrás – alguns já colocam os dois pés atrás em relação à dupla. Quem viu o Palmeiras jogar ultimamente sabe que o estilo não recomenda o técnico. Com outro elenco ele poderia ter feito algo diferente? É bem provável, mas indemonstrável. E Parreira? Quem não se lembra do seu Corinthians, muito bem treinado, e que tinha na posse de bola seu ponto forte, antes que essa característica fosse elevada a dogma com a ascensão do Barcelona? No entanto, aquele Corinthians forte, racional e experiente foi demolido por um Santos adolescente e ofensivo em dois jogos nas finais o Brasileiro de 2002.

O que tudo isso quer dizer senão que não existem fórmulas prontas para vencer ou perder no futebol?

O Barcelona seria o mesmo sem os jogadores que lhe dão suporte? Por que então tomá-lo como modelo absoluto? Alguém elegeu como paradigmas o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão ou o Flamengo de Zico? Não, porque esses modelos se esvaziariam sem os jogadores que lhes emprestaram corpo e alma.

O Barcelona tem sido considerado mais que um clube (é seu slogan). O Barça seria uma ideia. Um modelo absoluto. Para um futebol sem ideias, como o brasileiro atual, parece mais fácil importar uma, já pronta. Sem lembrar que existem problemas de aclimatação e execução. Sem isso, ideias não passam de abstração. Ou deslumbramento tolo.

* Publicada na Coluna Boleiros, do Caderno de Esportes do Estadão *

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