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‘Ida’ ou o peso da História

Luiz Zanin Oricchio

01 Janeiro 2015 | 19h31

Num leque de tempo, Ida, de Pawel Pawlikowski, abraça a invasão da Polônia pelos nazistas, o holocausto que causou a morte de milhões de judeus, e, de quebra, o passado stalinista do país, sob a influência da União Soviética após a 2ª Guerra.

Um panorama desse tipo exige monumental poder de síntese. Ainda mais quando se sabe que este filme, considerado favorito ao Oscar de língua não-inglesa (vulgo filme estrangeiro), dura meros 80 minutos – 82, com os créditos.

Como diz seu título, concentra-se sobre a personagem de Anna, que depois descobrirá seu nome real, Ida (Agata Trzebuchowska), noviça órfã, prestes a fazer seus votos e que descobre um passado insuspeito. Antes de se internar de uma vez para sempre num convento, a superiora a obriga a ir ao encontro do único parente remanescente, uma tia, Wanda (Agata Kulesza), que ocorre ser implacável promotora, com alto posto no regime comunista.

 

 

Divulgação
Cena do filme ‘Ida’

 

 

 

O filme se alimenta da relação entre as duas mulheres. Anna é travada e rígida. Wanda, autoritária e expansiva, fuma, bebe e fala demais, gosta de homens. Viajam pelo interior da Polônia, a bordo de um improvável carro dos tempos soviéticos, em busca do passado de Anna. É uma viagem às trevas, mas iluminada aqui e ali pela estranha personalidade de Wanda e o espanto contido de Ida. Luz e sombras, em estupenda fotografia em preto e branco e numa janela de exibição pouco usual, 4:3, que dá ao filme ar fechado e antigo, como se às vezes estivéssemos em meio a um sonho. Ou a um pesadelo. O recurso foi usado recentemente por um filme brasileiro, O Homem das Multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes.

 

A história se passa em 1962, e a curva dramática das duas personagens é um dos fatores que prendem a atenção do espectador. Uma espécie de nó que se aperta de forma progressiva e inexorável. Há aí um sentido acurado de ritmo desse diretor que veio do documentário e sabe conduzir essa ficção numa mescla de road movie e história de detetive. São três polos a contemplar – a questão católica, a judaica e o estado autoritário comunista. Todos imbricados. País com passado de antissemitismo, com uma prevalência católica pesada e uma herança autoritária e burocrática. Há que viver com isso. Mas não é fácil.

 

Nenhum desses polos se situa fora dos personagens, defeito frequente de filmes de tese, que se tornam chatos, demonstrativos e com aparência artificial. Aqui, não. As questões se depositam e se sedimentam nas duas personagens em cena, na maneira como seu relacionamento progride e nas outras figuras que vão entrando na história, à medida que esta avança. Veteranos de guerra, traidores, colaboracionistas surgem para dar ou sonegar informações. Ao mesmo tempo, personas contemporâneas relembram que estamos nos anos 1960 e não nas trevas da guerra. Por exemplo, num lugar perdido do mundo, as duas hospedam-se numa estalagem, na qual há um bar onde se toca o jazz mais avançado de John Coltrane.

 

O jazz aparece como elemento dissonante e não meramente decorativo em meio à ação. Com um raio em céu azul, surpreende. Signo da liberdade, da invenção, da criatividade, aparece como nota à parte naquele ambiente soturno. Não por acaso Wanda se sente atraída pelo saxofonista, mas, no fundo, é a figura do jazz como contraponto à rigidez cadavérica do ambiente o que se impõe. Faz todo sentido, visto a posteriori. No momento em que surge na tela, apenas produz o choque de uma bem-vinda estranheza.

 

De qualquer forma, este é apenas um dos achados de um filme fora de série justamente porque cheio deles. Trabalhando com temas batidos, Pawel, que mora na Inglaterra, não se conforma em repetir o que já foi dito muitas vezes e de maneiras diferentes. Introduz algo novo, o que não é mera estratégia formal, mas maneira diversa de enxergar a História. Em perspectiva, como se deve fazer.

 

Vendo-a do presente e avaliando a repercussão de um passado que custa a desaparecer. Daí esse ponto de vista contemporâneo, com sua negativa de utopias políticas e, até certo ponto, religiosas. Os anos 60, com o questionamento (na Europa) dos crimes stalinistas, que punham em xeque o sonho das revoluções libertárias. Por fim, as cicatrizes indeléveis da guerra e do holocausto, que ressurgem a cada vez que se tenta ignorá-las. É o que em psicanálise se chama de “retorno do reprimido”. Traumas não enfrentados voltam como força renovada. Vasculhando o passado, Ida preocupa-se com o mundo atual.

 

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