As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Hora do Lobo: psicanálise das paixões humanas

Luiz Zanin Oricchio

12 de junho de 2009 | 22h12

Hora do Lobo (Versátil, R$ 44,90) é tido como o único filme gótico de Ingmar Bergman. Mas é necessário precisar os termos. Ele faz parte de uma série de experimentações do cineasta sueco e encontra-se entre Persona (1966) e Vergonha (1967), este também agora lançado no mercado de DVD pela Versátil. Nesses filmes Bergman se dispõe a explorar o atormentando mundo interior dos seus personagens, mais fundo até do que até então fizera. É uma tendência do artista, que se encontra aqui em seu ponto mais exacerbado. Como se sabe, Bergman, vítima de uma educação religiosa muito rígida na infância, expressa em sua obra o debate sobre o silêncio de Deus e o estende à questão do casal. O desamparo humano, solitário diante de um suposto criador que não lhe responde, encontra outra face do seu desespero na ilusão sempre desfeita do casal. O que poderia ser encontro, fusão, preenchimento, torna-se de maneira muito rápida desilusão e uma solidão ainda pior. É uma cosmovisão que se desdobra em obras tão diferentes como Cenas de Um Casamento e esta A Hora do Lobo.

A história é a de um pintor, Johan (Max Von Sydow), e sua esposa grávida, Alma (Liv Ullmann) que se retiram para uma ilha isolada, porém povoada de estranhos seres. Ele tem a sua obra para fazer e ela, um filho para esperar. Sabemos desde o início que, em determinado momento, Johan sumiu para nunca mais aparecer. E quem nos conta isso? Alma, olhando diretamente para a câmera, nos dizendo explicitamente que aquilo é um relato, um filme, quer dizer, um artifício, e que o que iremos ver é algo encenado por atores. Antes mesmo de Alma falar, o filme nos informa que tudo aquilo que iremos ver é baseado num depoimento (o da própria mulher) e nos diários deixados por Johan. Há então, além do distanciamento, uma história de mistério a ser contada.

E essa história tem a ver, basicamente, com o enfrentamento por Johan Borg de seus próprios fantasmas. Ou assim podemos deduzir, já que, para Johan, esses fantasmas parecem bem reais – quer dizer, exteriores a si mesmo. O filme é fotografado em preto e branco magnífico de Sven Nykvist, diretor de fotografia de algumas das obras-primas de Bergman. E é esse registro que empresta o tom fantasmagórico a certas passagens. Uma delas, talvez a mais assustadora da obra de Bergman, quando John é atacado na praia por um menino, ou alguém que parece ser uma criança. Cena angustiante de perigo iminente e depois agressão.

Há outras sequências igualmente impressionantes no interior do castelo dos nobres habitantes da ilha. Numa delas, grotesca, uma mulher muito velha retira sua peruca, seu rosto se desfaz enquanto ela retira um olho de vidro e o coloca num cálice, à frente de um espantado Johan. Outra, quando ele vê o corpo de sua antiga amante morta, Verônica Vogler, recobrar vida diante dos seus olhos. É tudo assustador e tudo extraordinário, como se Johan vivesse no interior de um pesadelo e o partilhasse conosco. De maneira muito radical.

E esse radicalismo é expresso de maneira muito interessante num dos extras do DVD, a entrevista com a atriz Liv Ullmann, feita muitos anos depois. Na época, Liv vivia na Noruega e estava grávida de sua filha com Bergman. O cineasta a chamou para um filme chamado Os Canibais. Liv não topou. Achou que não tinha condições de filmar “aquilo”. Bergman então lhe disse que viesse, pois iria arrumar um novo projeto. Mas tudo o que fez foi dar uma garibada em Os Canibais e transformá-lo nesta A Hora do Lobo. Liv conta que não deveria ter cedido aos pedidos do cineasta, que este a obrigou a fazer coisas que uma gestante não faz. “Eu deveria ter mostrado a sabedoria que a minha personagem tem”, constata a já madura Liv Ullmann a respeito daquela experiência artística que se poderia chamar de terminal.

A “sabedoria” da personagem Alma consiste em não entrar inteiramente no delírio de Johan. Liv Ullmann vive com muita presença uma camponesa que não entende muito bem a angústia do marido e limita-se a ter ciúmes de uma amante do passado. É uma espécie de sopro de bom senso em meio a um ambiente paranoico, quer dizer, de perseguição de imagens internas. Quase inútil assinalar que este filme, tanto quanto o anterior, Persona (no Brasil, Quando Duas Mulheres Pecam) é totalmente influenciado pela psicanálise. Rever esse filme é constatar em que medida Bergman conciliava a beleza, a estética do filme com a reflexão. Aliás, não são dois aspectos separados; a forma é o seu conteúdo.

(Caderno 2, 12/6/09)