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Homenagem a Mario Monicelli

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2010 | 20h02

Amigos, o que segue abaixo é um texto que escrevi sobre Mario Monicelli, quando estive no Festival de Veneza do ano passado. Por uma dessas coisas da vida, ficou inédito até agora. Quando Mario morreu, nesta semana, o jornal usou alguns trechos no necrológio. Aí está o texto completo. Como homenagem a Mario.

Quem não gostaria de envelhecer como Mario Monicelli? 94 anos, magro, comendo e bebendo de tudo, andando, e bem, com as próprias pernas. Mais importante: pensando com a própria cabeça. Assim é o diretor de O Incrível Exército de Brancaleone (1965), talvez sua obra mais famosa.

Aliás, ele é dono de uma cabeça lúcida e cheia de ironia, como constata qualquer um que dele se aproxime. Mario é agudo. Diz o que pensa, com poucas palavras e tempero cético, igualzinho aos diálogos que escreveu para seus melhores filmes. E o que pensa vale a pena ser ouvido. O cinema italiano? “Anda muito mal”, com poucas exceções. Mas nem poderia ser diferente, pois “a Itália inteira caiu muito baixo, nunca vi coisa igual”, diz, referindo-se a mais um governo Berlusconi. A vantagem da democracia? “Pelo menos podemos falar da situação calamitosa deste país”.
Monicelli é uma das figuras notáveis dessa Itália que ele tanto critica. Mora em Roma, e, sobre o seu bairro, fez no ano passado um belo filme de curta-metragem, Vicino ao Colosseo…c’è Monti.

Agora parou. Aposentou-se, diz. Mas se desloca todo ano, em setembro, a Veneza, para assistir ao festival (o mais antigo do mundo) do qual é sempre convidado de honra. No ano passado, Monicelli deu susto em todo mundo. Circulou a notícia de que havia caído no banheiro do hotel onde se hospedava – o mitológico Hotel des Bains, onde Visconti filmou Morte em Veneza. Correria. Pânico nas redações. Necrológios preparados às pressas. No dia seguinte, um redivivo Monicelli era ouvido, lépido e irônico como sempre, participando de uma mesa redonda sobre cinema transmitida por uma rádio local.

Neste ano, Mario não deu susto em ninguém. Compareceu a todas as ocasiões montadas para homenageá-lo – e à sua obra. Primeiro, porque era o cinqüentenário de um dos seus grandes filmes, A Grande Guerra, que vencera o Festival de Veneza de 1959 (dividindo o Leão de Ouro, que então se chamava Leão de San Marco, com outro peso-pesado, De Crápula a Herói, de Roberto Rossellini). Era uma época de ouro do cinema italiano, esta que podia partilhar prêmio internacional tão importante, entre dois diretores desse porte, que apresentavam obras de denúncia, porém cômicas e irônicas, sobre o hábito humano de fazer guerras e matar-se entre si na disputa pelo poder.

Mas havia também outro motivo para Monicelli estar em Veneza. É que o festival vem, ano após ano, lançando em cópias novas obras menos conhecidas dos grandes diretores. E Monicelli, convém lembrar, é cineasta dos mais prolíficos. Em 2008, os espectadores puderam ver uma rara comédia política, com traços surrealistas, chamada Toh!, È Morta la Nonna (A Vovó Morreu, 1969). Para se ter ideia, a defunta em questão vez por outra revivia e expressava seus pensamentos segundo frases tiradas do Livro Vermelho de Mao Tsé Tung. Neste ano foi vez de outra raridade, Temporale Rosy, de 1979, com um Gérard Depardieu bem jovem no papel de um pugilista decadente. No auge da carreira, Depardieu arrebenta a mão numa prova de machos que consiste em rachar uma porta com um soco. Fica inutilizado para o boxe e assim vai trabalhar num parque de diversões em provas de força. Nesse métier, conhece a protagonista do filme, a tal Rosy Temporal, mulherão mais alta e mais forte do que ele. A personagem é vivida pela norte-americana Faith Minton, lutadora na vida real, conforme explicou Monicelli antes da sessão especial do filme.

Aliás, a apresentação, em si, já foi hilária. Primeiro usou da palavra um crítico de cinema que esmiuçou a obra em seus mínimos detalhes, usando recursos da lingüística e da semiologia, para em seguida classificá-la entre as melhores feitas em seu período. Depois, a palavra foi passada para o próprio Monicelli que, para surpresa dos presentes, começou assim a sua fala: “Bom, daqui a pouco vocês vão ver um filme que tem pouquíssimo a ver com tudo o que o nosso ilustre crítico falou”. Em seguida, detonou a própria obra, dizendo que a considerava fracassada (sbagliata) e que poderia ter feito coisa melhor com a idéia que havia tido. E qual era essa idéia? Algo que se pode dizer próximo da simplicidade genial. Monicelli, que é um homem do povo, contou que gostava de conviver com lutadores. Boxeadores, astros do telecatch, mulheres fortes, farsantes e brutamontes de todos os tipos. Ia assistir às lutas, depois gostava de acompanhá-los a restaurantes e bares. Comia e bebia em sua companhia. E surpreendeu-se com o que descobriu: “São seres ternos, delicados, quase infantis em sua brutalidade”. Desse modo, resolveu filmar uma história sobre essas pessoas.

A escolha de Depardieu lhe pareceu lógica, dado o físico avantajado do francês. Já Faith Minton lhe foi recomendada. E Monicelli jamais se arrependeu da escolha: “Era uma moça gentil, alta, bonita, bastante profissional, nunca me deu problemas”. Mesmo assim, ele acha que poderia ter ido melhor nessa incursão ao universo da luta e seus personagens. Ok, certamente Temporale Rosy não é um grand cru da generosa vindima Monicelli. Mas é um filme para lá de interessante, e com momentos bem divertidos. Mostra, para além dos seus possíveis defeitos, uma característica de Monicelli (e de outros grandes criadores): a ternura com os personagens, em especial aqueles do povo, que dão duro para extrair o sustento em um meio hostil. É possível que os lutadores, em especial os lutadores pobres, mambembes e decadentes, sejam uma metáfora perfeita dessa visão de mundo do cineasta. Não por acaso, é assim a figura de Zampanò, vivida por Anthony Quinn em A Estrada da Vida, de Federico Fellini, contemporâneo de Monicelli. Brutos que possuem coração de manteiga, afinal de contas.

Mas o fato é que esses filmes, por melhores que pareçam, não chegam perto das obras-primas de Monicelli. A Grande Guerra (1959) é uma delas. A primeira, de fato. Ele mesmo a considera sua “estréia” na direção, apesar de já ter assinado vários filmes antes, cinco deles com ninguém menos que Totò no elenco. “Mas foi com A Grande Guerra que me senti dono do ofício”, conta o diretor. E são muitas as peripécias relativas ao filme, inclusive as brigas com os produtores que, ao verem certas cenas mais sombrias, queriam que tudo fosse refeito. “Disse a eles que meu principal objetivo não era divertir e sim mostrar o horror da guerra”, lembra.

Também é verdade que, como acontece em quase todos os filmes de Monicelli, em A Grande Guerra esse tipo de denúncia vem junto com um humor muito mordaz, inteligente, que diverte e faz pensar ao mesmo tempo. É, aliás, um dos segredos da “commedia all’italiana”, da qual ele conhece a receita como poucos outros diretores, Dino Risi entre eles.

Mario, comunista ferrenho até hoje, fez também alguns filmes “sérios”, entre eles um clássico do cinema político, Os Companheiros (1963), com Marcello Mastroianni no papel de um militante de esquerda que entrega a vida à causa. Mas, comunista peninsular, também desconfia de maneira natural do excesso de seriedade. Lembra-se de um tempo mais relaxado em que as pessoas iam ao cinema, se divertiam, comentavam o filme, bebiam e fumavam durante as sessões. “O cinema era mais popular, depois veio a crítica e quis nos fazer crer que era uma ‘arte’ sagrada, que se deveria reverenciar, e perdemos a espontaneidade. As sessões viraram ritos fúnebres”. Mario tem o raro dom de fazer um cinema que diverte, mostra conteúdo e portanto pode agradar tanto ao intelectual exigente quanto à gente do povo. “É uma arte, mas também indústria”, costuma dizer. E, assim, construiu uma carreira extraordinária divertindo e falando de coisas sérias como a ética particular dos pequenos trapaceiros em Os Eternos Desconhecidos (1958), a Idade Média em Brancaleone, os enganos da pequena burguesia em Um Borghese Piccolo Piccolo (1976), a dissolução da família em Parente É Serpente (1992).

Qual o segredo? “Não ter medo de olhar para a realidade e mostrá-la na tela. E desmascarar os poderosos a golpes de ironia”, ensina. Parece simples. Mas quem consegue fazer isso hoje em dia, nessa época em que a realidade é aquilo que mais se esconde e a ironia perdeu lugar para uma pseudo-seriedade autocomplacente? A forma que fez Monicelli parece ter se quebrado.

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