Homem Onça num país em liquidação
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Homem Onça num país em liquidação

Luiz Zanin Oricchio

02 de setembro de 2021 | 20h20

Assisti a Homem Onça no recém encerrado Festival de Gramado. Como ainda não o revi e nem tive oportunidade de mudar de ideia, agora que ele entrou em cartaz transcrevo o que escrevi durante a cobertura do festival. Segue abaixo. 

Em primeiro lugar, deve-se dizer que Homem Onça é um filme de caráter pessoal e familiar. O cineasta Vinícius Reis inspira-se em seu pai, funcionário da Vale do Rio Doce. Demitido com a privatização da empresa, entrou em parafuso, deixou a família e foi morar em sua cidade natal, no interior de São Paulo. 

Chico Diaz faz Pedro, um executivo da fictícia Gás Brasil. Estamos em 1997, a empresa é lucrativa, nacional, mas isso não quer dizer mais nada. Pedro e sua equipe serão desalojados dos seus empregos e a companhia passará a se chamar GasBrax. Assim como durante o governo FHC havia a proposta de rebatizar a Petrobras como Petrobrax, pois facilitaria as negociações no exterior. 

O encanto (e a dor) de Homem Onça está na recriação de um cotidiano que será destruído. O companheirismo de equipe, a premiação do projeto ecológico no exterior, o futebol society com os colegas depois do serviço, o barzinho após o jogo, a música, a confraternização. Tudo isso evapora. Evoca-se um país à beira de desaparição, sem que os protagonistas se deem conta. 

Ao naturalismo de abordagem, beneficiado por um elenco excepcional, soma-se um discreto elemento do fantástico. À medida que sua vida vai sendo destruída, Pedro começa a apresentar manchas em sua pele. Talvez um processo psicossomático, como o vitiligo desenvolvido pelo pai do diretor na saída da Vale. Ou algo mais alusivo, simbólico, como as manchas de pele evocando as pintas da onça que rondava a mata da cidade de origem de Pedro. Pedro é um dinossauro, um animal tão em extinção como as onças nas matas brasileiras. 

À medida que as referências de Pedro lhes são roubadas, o casamento com Sonia (Silvia Buarque, ótima) entra em crise. Ele vai buscar em uma antiga namorada, Lola (Bianca Byington), e na cidade da infância, algum outro centro de vida possível. 

Com privatizações e país à venda, modos de existência vão para o buraco. No mundo dos negócios e da expansão do capital, falar em seres humanos torna-se completamente fora de moda. Out, coisa do passado. Papo de gente velha e fracassada. À sua maneira, esse filme cheio de ternura e afeto é também uma advertência para a direção tomada e que nos leva ao abismo. Quando, como agora, vivemos em meio ao horror, temos uma oportunidade preciosa para meditar sobre o nosso destino. E, talvez, alterá-lo. 

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