Homem Comum, Infância, Love 3D, La Sapienza são as principais estreias
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Homem Comum, Infância, Love 3D, La Sapienza são as principais estreias

Entre as estreias, a polêmica de 3D, de Gaspar Noé, a nostalgia agridoce de Infância, de Domingos Oliveira, a ousadia documental de Homem Comum, de Carlos Nader, a aventura cultural de La Sapienza, de Eugène Green e o mundo jovem gravado em celular de Eu Nunca, de Kauê Telloli

Luiz Zanin Oricchio

11 Setembro 2015 | 10h44

love

Love 3D, do franco-argentino Gaspar Noé, chega com a aura do escândalo – traz cenas explícitas de sexo, e em 3D, ainda por cima. Ok, tem mesmo muito sexo, mas, na verdade, o enredo é uma história de amor banal – como são todas as histórias de amor. O filme baseia-se num longo flashback, em que o personagem masculino, Murphy (Karl Glusman), em meio a um casamento tedioso, relembra a paixão que teve por Electra (Aomi Muyok). Noé constata o óbvio: que a paixão amorosa envolve sexo e este, em geral, é escamoteado no cinema. Ou filmado de maneira pudica. Ou publicitária, o que dá na mesma. Ele vai de forma explícita. Não é um pornô. É só isso mesmo: uma historinha de amor com sexo. Como são todas. Ou quase todas. O 3D se justifica (mas se justifica mesmo?) sobretudo em uma cena mostrando uma ejaculação masculina que, ameaçadora, se dirige à plateia. O filme, em si, é interessante.

infancia

Infância é o Amarcord de Domingos Oliveira. Ou o Em Busca do Tempo Perdido de Domingos. Baseado em peça de sua autoria, resgata parte da sua infância, vivida em torno de um casarão onde pontifica a avó, a matriarca Dona Mocinha (Fernanda Montenegro). Tom agridoce, inspirado, bons diálogos, como costumam ser os filmes de Domingos. Traz à tela a época: 1950, com Lacerda conspirando contra Getúlio e polemizando com Samuel Wainer. Grandes atuações, duas em especial, a de Fernanda como a idosa dominadora, e Paulo Betti, como o genro malandro e oprimido. Filme de boa feitura, caprichado, talvez um dos melhores, do ponto de vista técnico, da filmografia recente de Domingos Oliveira.

homem

Homem Comum, de Carlos Nader. Engraçado, quando se pensa nos maiores documentaristas do país, em geral esquece-se do nome de Carlos Nader. No entanto, ele já ganhou três vezes o festival de documentários É Tudo Verdade, um dos melhores do país. Numa das vezes foi com este Homem Comum, que chega agora aos cinemas. Nele, diferentemente do que fizera em trabalhos anteriores, dedicados a gente do meio artístico (Waly Salomão e Leonílson), Nader elege como personagem um caminhoneiro e sua família. E nele descobre que, sob a etiqueta de homem comum, esconde-se um ser humano… incomum. Quer dizer, singular. Original, e sensível. Pode parecer forçado induzir um homem prático como Nilson a refletir sobre o “sentido da existência” ou o papel dos sonhos na vida consciente. Coisas assim. Mas é o que acontece. E mesmo o paralelismo da vida deste ser humano e um filme como Ordet (Palavra), do dinamarquês Carl Dreyer, encontra organicidade no documentário.

lasapienza

La Sapienza, de Eugène Green. Chance de conhecer o cinema original de Green, um norte-americano radicado na França. Há que se ultrapassar certa estranheza inicial. Os personagens assumem poses hieráticas, não raro olham para a câmera, em negação ao naturalismo, a corrente dominante do cinema. Mais: os filmes percorrerem densas camadas de referências culturais como, no caso, a arquitetura barroca europeia. O fio narrativo é composto por um casal em crise. O marido é especialista em Borromini. Numa viagem à Suíça, o casal conhece dois jovens irmãos e, com eles, de certa forma reaprendem a viver. Um cinema às vezes difícil, porém apaixonante quando o espectador consegue descer de seus preconceitos e ingressar num mundo diferente. Afinal, o cinema está para isso mesmo: para nos desvendar mundos que não vivenciamos em nosso cotidiano.

Eu nunca

Eu Nunca, de Kauê Telloli. O diretor é também um dos três únicos intérpretes do filme. É o seguinte: dois primos e uma garota vão para uma casa de sítio da família dos rapazes. Filmam-se o tempo todo com o celular e estas, supostamente, são as imagens que vemos na tela. Há flerte entre os jovens e encenações de fatos que, também por hipótese, teriam ocorrido em suas breves vidas. Subproduto do cult A Bruxa de Blair, toma, no entanto, outro caminho narrativo. Vai mais para o suspense que para o terror teen. Às tantas, parece haver um acidente com um rifle…mas as coisas não ficam bem claras. O senso de ambiguidade levanta o filme que, confessemos, estava meio caidaço. Há certa monotonia na maneira como a trama se desenrola. Sobretudo monotonia visual. Mas também vê-se nele algum talento que, de maneira mais concentrada, talvez venha a se expressar.

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