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Homem-Aranha: o suposto lado ‘escuro’ do herói

Luiz Zanin Oricchio

05 Maio 2007 | 10h42

Há uma primeira consideração a ser feita em relação a Homem-Aranha 3, e ela é de ordem mercadológica. Na revista Cahiers du Cinéma do mês passado, os críticos fazem uma série de sugestões aos candidatos à presidência, Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy. Uma delas seria limitar o número de cópias dos megalançamentos, sem o que, ‘qualquer política cultural eficaz será uma ilusão’. É isso mesmo. Com suas 700 cópias, que entrarão hoje em cartaz no Brasil, O Homem-Aranha produzirá uma verdadeira devastação no ecossistema cinematográfico. Filmes que estavam indo bem serão expulsos das salas, outros terão suas carreiras abreviadas e assim por diante. Esse é um problema político, de difícil solução, porque significaria intervir no mercado.

Esse é um ponto, a voracidade mercadológica do filme. O outro é o filme em si mesmo. Antes de pensarmos se Homem-Aranha é bom ou ruim, devemos compreender que se trata de ‘cinema-evento’, aquele sobre o qual é preciso dedicar tempo e, eventualmente, inteligência, mesmo que a coisa em si, quer dizer, o filme, não valha tanto dispêndio de energia. Ele é um fato da sociedade do espetáculo e cria-se em torno dele toda uma expectativa favorável, com a convocação de fãs e aficionados, sites na internet, alvoroço em blogs, anúncios de produtos a ele vinculados, making of e coisas tais. Não se escapa desse tsunami publicitário.

Mas, para exercitar um mínimo de racionalidade, é preciso colocar tudo entre parênteses e tentar olhar o filme como se fosse apenas isso, um lançamento de cinema entre outros, sem tanto dinheiro envolvido, sem tanta estratégia de mercado.

O que temos aí? Basicamente, o de sempre. Uma história de amor e aventura tirada de um herói das histórias em quadrinhos. Boas cenas de ação, bombadas a efeitos especiais convincentes. Não se pode dizer que o filme não tenha ritmo e que por este motivo oferece ao público-alvo aquilo que ele deseja do cinema. Heróis, vilões, mocinhas, ação, reação. Alguma inovação em meio à previsibilidade, mescla essa que é justamente a pedra de toque do cinemão: apresentar o mesmo produto várias vezes, fazendo de conta que se trata de algo diferente. Assim, são satisfeitas duas tendências em aparência contraditórias: 1) a ânsia de novidades que alimenta a sociedade de consumo rápido; 2) a necessidade de que a ‘novidade’ não seja realmente nova, caso em que poderia afastar o consumidor. Este pede mais do mesmo desde que pareça um pouco só diferente.

Alguém vai dizer que se está esquecendo justamente aquela que seria a novidade ‘radical’ do Aranha 3 – a sua relação com o mal. O lado escuro da Força, já se sabe, era reservado a Darth Vader na série Guerra nas Estrelas. É uma constante nesse tipo de série ou literatura, o Bem contra o Mal o que, dizem os entendidos, faria parte da natureza humana mesma, dos nossos arcanos, quando não do inconsciente coletivo da espécie, para dar uma de Carl Jung.

A sacada de Homem-Aranha é que o lado obscuro estaria não fora, mas dentro dele mesmo, argumentam os defensores, dizendo que assim o filme quebra o maniqueísmo e ganha em complexidade. Não vi nada disso. Pelo contrário. Como verão os milhões de espectadores no Brasil e em todo o mundo o Mal só está em Tobey Maguire por força de um agente externo. Uma vez eliminado, ele volta a ser o que era e todos podem ficar sossegados. Fazer de um super-herói um ser contraditório, complexo, inquietante talvez não fosse a melhor solução para um produto caro e que aspira ao sucesso planetário. Quer dizer, aspira ao desejo de simplicidade que todos temos, em especial na faixa etária a que se destina o filme, a adolescência. Adolescência que, hoje em dia, se sabe, pode ir até a meia-idade, ou além.