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Holy Motors

Luiz Zanin Oricchio

30 de novembro de 2012 | 11h17

Tão enigmático quanto Holy Motors é o tempo que seu diretor Leos Carax demorou para fazê-lo. Exatos 13 anos, a contar do seu Pola X. No Brasil, o diretor é mais lembrado por seu Os Amants do Pont-Neuf, que nos apresentou a atriz Juliette Binoche, o que já não é pouco. De qualquer forma, Carax, tido como bicho estranho, passou longo tempo sem lançar novo filme – com exceção do episódio Merde no filme coletivo Tokyo!, de 2006.

Eis que chega com um este Holy Motors, um filme literalmente inqualificável – no melhor sentido do termo. Isto é, não se ajusta ao que esperamos do cinema, em especial nesta época um tanto avessa a surpresas, ousadias ou experimentalismos. Todo esse banquete, Carax nos serve sem reservas e sem economias.

A história (?) é construída a partir de um misterioso personagem e seus avatares. O ator é Denis Lavant, prodígio de transformismo. Vamos vê-lo primeiro como milionário, depois como mendiga húngara corcunda, depois…Enfim, são 11 relatos, e mais um prólogo e um epílogo. Uma espécie de poema em prosa de 13 faces. Há um traço de união entre esses, digamos assim, contos cinematográficos, além do ator e transformista: a limusine em que se desloca em uma Paris de sonho, ou de pesadelo, conforme o caso.

Seria banal dizer que poucas vezes a cidade foi fotografada com tanta intensidade, não fosse Paris uma das locações mais fotogênicas do mundo. Mas não se trata aqui de beleza, ou charme, ou qualquer desses clichês visuais do gênero. Trata-se de devolver a Paris algo que a superexposição havia-lhe roubado – o mistério. Aqui a temos de volta nesse registro. Um ponto de vista de alguém que sai da periferia rica a bordo de um carro e pode ser um desses milionários muito poderosos, alguém cujo dinheiro o leva a manipular os cordões do poder político.

Nesse ponto, Holy Motors faria pendant com Cosmópolis, que David Cronenberg tirou de um romance de Don DeLillo e se passa no interior de uma limusine habitada por um alto executivo desse naipe (Robert Pattison). Mas logo se vê que, apesar desse ponto em comum, os dois projetos são muito diferentes, senão divergentes. Se Cronenberg permanece no registro da alegoria (política e econômica), Carax mergulha em cheio na distopia e no absurdo.  A transformação do milionário em mendiga estrangeira será apenas um disfarce para entrar impune numa cidade hostil à ostentação? É um comentário sutil a respeito da inutilidade de toda a vaidade? Ou mergulho no pesadelo fantástico, que lembra algumas situações descritas por Julio Cortázar nesta mesma Paris de sonho – em especial no conto A Distante (Lejana), em que a mulher jovem e a mendiga idosa trocam de identidades sobre uma ponte do Sena?

Essa será a atmosfera de Holy Motors: sentimo-nos em meio a um sonho, do qual não desejamos despertar até vermos esgotadas as suas possibilidades. De cada um desses episódios – e do magnífico epílogo – poderemos tirar conclusões e significados a nosso bel prazer. Por engenhosas que sejam nossas interpretações, deixam sempre um resto na sombra, algo por descobrir, essa  ponta de mistério que é a prazerosa sensação do fantástico. É entrar no sonho e deixar-se levar.

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