Hoje: entrevista com Tata Amaral
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Hoje: entrevista com Tata Amaral

Luiz Zanin Oricchio

22 de novembro de 2012 | 12h56

Denise Fraga em Hoje, de Tata Amaral

O longa-metragem Hoje, de Tata Amaral, abre a 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, no CineSesc, às 20h30. O filme venceu o Festival de Brasília de 2011 e deu à sua intérprete, Denise Fraga, o troféu Candango de melhor atriz. Por um desses mistérios da distribuição dos filmes nacionais no País, continua até agora inédito no circuito comercial. É um belo trabalho. Remonta à memória da ditadura, e mostra como Denise Fraga, tão à vontade na comédia, é atriz dramática de primeira linha, o que já sabia quem a viu no palco interpretando Brecht.

A história é baseada no romance Prova Contrária, de Fernando Bonassi, e narra a chegada de uma mulher, Vera (Denise Fraga) ao seu novo apartamento. Imóvel adquirido com dinheiro da indenização recebida pelo desaparecimento do marido (o uruguaio Cesar Troncoso) nos anos da ditadura. Para poder deixar a posição do luto paralisante, Vera precisa exorcizar seus fantasmas, da mesma forma que um país necessita conhecer sua história, por dura que seja, para poder avançar. Longe de ser um luxo de intelectuais, o conhecimento do passado é um direito humano fundamental. A seguir, a entrevista com a diretora Tata Amaral.

 

Como você chegou a esse projeto?

Tata – Tudo parte do livro do ….Na verdade, uma parte do livro me tocou. Quando ela fala em suicídio. Ela fala que sentia tanta falta dele que poderia se suicidar. E, nesse ponto, o livro me agarrou. Não por acaso. Eu perdi o pai da minha filha desse jeito. Eu tinha 19 anos. O livro era uma plataforma para falar da ausência. Como você convive com a ausência de uma pessoa querida? A outra coisa é que a estrutura do livro batia com a pesquisa sobre relato que eu estava fazendo na época. Vi que a adaptação poderia seguir essa linha de um relato não-linear, que era o que me interessava.

Além desse lado pessoal, há também o período retratado, não é?

Sim, sem dúvida. O interesse em lembrar de um passado que todos nós queremos esquecer. Só que, para esquecer, é preciso lembrar dele, paradoxalmente.

É curiosa essa dificuldade que nós temos em remexer no nosso passado. Claro, existem os filmes, os livros sobre o período, mas são, de modo geral, meio tímidos. Os uruguaios e os argentinos se movem melhor nesse período de ditadura do que nós, não te parece?

Isso para mim acabou sendo uma espécie de trilogia. É uma verdade psicanalítica, não é: você só pode iluminar se expuser esse ao dia. Se jogar para baixo do tapete, aquilo fica te assombrando. Eu fiz o Rei do Carimã, sobre um episódio da vida do meu pai do qual ninguém falava. Aquilo ficou nos assombrando e só nos libertamos quando eu descobri a verdade. No mesmo tempo, eu fazia o Trago Comigo, que é a série para a TV Cultura sobre a militância política. Nesse, eu misturei ficção e realidade e entrevistei vários dos militantes, alguns deles engajados na Comissão de Justiça e Verdade. Um deles, o jornalista e pintor Sérgio Sister diz: ‘Nós fomos presos, torturados e assassinados, pelo fato de combater a ditadura’. Eu não conheço um único torturador que tenha ficado um dia preso por seus crimes. A posição do Brasil é que nós somos conciliadores porque foi feito um acordo espúrio em 1978. Em Trago Comigo, eu tive de apagar o nome dos torturadores, porque senão eu seria processada. Os torturados sabem quem são. Falaram seus nomes, mas eu tive de apagar da edição final.

Esse seu filme é em locação única, no interior de um apartamento. Assim era também Um Céu de Estrelas e Através da Janela. Alguma preferência por esse tipo de situação?

É um desafio. Se tem de funcionar, funciona mesmo. Você não tem uma paisagem, uma distração, não dá para enrolar. Com Um Céu de Estrelas eu gostei do resultado. E este aqui é também assim. Uma única locação e o apartamento é um personagem. Não é um estúdio. É um apartamento real, um daqueles velhos imóveis da Av. São Luis. Quando o Jean-Claude Bernardet estava escrevendo o roteiro, ele falava em ‘realidades movediças’. Os ambientes vão se alterando segundo a história progride. Mas além disso, o realismo é quebrado por uma série de projeções e transparências contra as paredes.

A personagem lida com seus fantasmas, mas, ao mesmo tempo, quer se mover. Ela passou por tudo isso, mas quer olhar à frente.

Daí o título, que é Hoje. Ela pode ser vista como metáfora mesma dessa necessidade de conhecer o presente para, por fim, poder andar para a frente.

Você acha que faz mais sentido aparecer um filme como este no momento em que há uma presidente, que também foi militante de esquerda e torturada, e que existem uma Comissão da Verdade?

Faz todo o sentido. Mas eu acho que para exorcizar de vez esse período, é preciso trazer à luz o nome de quem torturou. Não por uma questão de revanchismo, mas porque de outro jeito ficamos no abstrato. Falamos em tortura, mas quem torturou? Qual é o nome de quem torturou? Agiu sob as ordens de quem? Só assim podemos passar o passado a limpo e olhar para o futuro.

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