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Hitchcock: consenso criado por trabalho crítico

Luiz Zanin Oricchio

17 Junho 2011 | 12h31

Nos anos 1950, com sua carreira já bem desenvolvida, Alfred Hitchcock não era, nem de longe, considerado um grande mestre acima do bem e do mal, como hoje. Nada disso. Era visto apenas como bom diretor, um artesão, conhecedor das manhas do seu métier e empenhado em trabalhos menores, “filmes para provocar medo nas pessoas”.

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‘Um Corpo Que Cai’. Quando estreou, diretor já era tido como gênio

Em área tão sujeita ao julgamento subjetivo, como o cinema e as artes em geral, seu caso é exemplar para se entender como se constroem consensos. Ou, para particularizar, como um artista da periferia ganha ingresso para o panteão do cânone.

No caso de Hitchcock, sua fama atual é fruto de intenso, trabalhoso e aprofundado trabalho crítico. Quem o empreendeu foram os então jovens críticos da influente revista francesa Cahiers du Cinéma – Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol e, em especial, François Truffaut.

Admiradores de Hitchcock, os críticos lançaram intensa campanha por sua entronização. Texto após texto, procuraram mostrar que havia mais nas obras do cineasta do que deixava ver a superfície. Em suas histórias de medo, Hitchcock discutiria temas tão profundos como aqueles debatidos, por exemplo, na obra de um Bergman. Bastava saber ver.

Em outubro de 1954, os Cahiers publicam extenso dossiê Hitchcock, com ensaios assinados por seus principais articulistas. Quando em 1959 Hitchcock lança na França seu Um Corpo que Cai já recebe tratamento de gênio inconteste.

A última fortaleza a cair foi justamente os Estados Unidos, onde Hitchcock ainda era tratado com condescendência por parte da crítica e do público sofisticado. Truffaut decide então fazer um grande livro de entrevistas, em que o mestre exporia seu método, filme a filme. O livro (No Brasil, Truffaut/Hitchcock, Cia das Letras) é lançado na França em 1966 e, nos EUA, um ano mais tarde. Torna-se sucesso e referência, com a fama de “o mais belo livro de cinema de todos os tempos” segundo uma resenha. Quando a última fronteira caiu, o lugar de Hitchcock na história do cinema estava assegurado. Morreu em 1980, cercado de glória e admiração.

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