Histórias Extraordinárias – Poe lido por Fellini, Malle e Vadim
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Histórias Extraordinárias – Poe lido por Fellini, Malle e Vadim

Luiz Zanin Oricchio

29 Julho 2010 | 17h45

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Terence Stamp em Tre Passi nel Delirio, de Fellini

Durante muitos anos, Toby Dammit, de Federico Fellini, foi uma espécie de filme secreto. No mínimo, uma raridade. A filmografia do diretor de 8 ½ e A Doce Vida já era arroz de festa na videoteca dos cinéfilos, mas poucos conheciam esse episódio, adaptado de Edgard Allan Poe e parte do longa-metragem Histórias Extraordinárias junto com Metzengerstein, de Roger Vadim, e William Wilson, de Louis Malle. Agora, o filme, completo, pode ser encontrado em DVD, lançado pela Continental.

Os três episódios são adaptações livres dos relatos de Poe contidos no livro homônimo. São, de fato, histórias nada ordinárias, segundo o gosto e estética do autor norte-americano. Um caso de metempsicose ou transmigração de almas em Metzengerstein; o tema do duplo em William Wilson; o desafio às forças diabólicas em Toby Dammit que, aliás, em italiano se chama Tre Passi nel Delírio (Três Passos no Delírio), leitura felliniana do conto Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo.

Nos três casos, é interessante verificar como os relatos passam da literatura ao celulóide dos filmes seguindo a tendência de cada um dos realizadores. Metzengerstein reflete à perfeição a estética kitsh de Vadim e seu gosto pessoal pelas belas mulheres. Não é outro o motivo de transformar em feminino o personagem masculino de Metzengerstein e fazê-lo ser representado por uma então belíssima Jane Fonda, na época mulher do diretor. É a história de duas famílias rivais e próximas. Fonda apaixona-se por seu primo, que não liga para ela. Acaba vítima de um incêndio criminoso por ela própria encomendado. A insinuação é que forças satânicas levam à perdição uma personagem carregada de culpa.

Já Louis Malle adapta William Wilson de maneira muito séria. Talvez até demais. O personagem-título é vivido por Alain Delon e conta, em retrospecto, como desde a infância se vê perseguido por um sósia, que, além do mais, porta o mesmo nome que ele. Um duplo, um döpplegange, essa obsessão, que acompanhou escritores como o próprio Poe, além de Dostoievsky e Borges. Esse duplo se fará presente em momentos cruciais da vida do bon vivant maléfico (outra obsessão, vide o Dorian Gray, de Oscar Wilde, entre outros). Aparece, em especial, quando ele rouba nas cartas para ganhar uma aposta contra a bela jogadora vivida por Brigitte Bardot. O filme tem clima e, comparado ao texto original, mostra como se pode verter para a tela um relato literário sendo ao mesmo tempo fiel e inventivo. A sobriedade e integridade artística de Malle fazem aqui a diferença.

Fidelidade e sobriedade são preocupações ausentes em Federico Fellini, que toma o texto de Poe apenas como ponto de partida e, em cima dele, põe-se a criar livremente. Lógico: dos três cineastas, Fellini é o inventor. Se no conto de Poe Toby Dammit é apenas um anônimo fanfarrão, em Fellini ele se transforma em ator de sucesso inglês que chega à Itália para fazer um filme. Terence Stamp vive o personagem alcoólatra e sua sensação de estranheza já começa no aeroporto onde é recebido pela produção. Toda a atmosfera onírica se insinua e prossegue ao longo do relato, marcado pelo desejo do personagem em pilotar uma Ferrari, a máquina dos sonhos de quem gosta de carros. O fellinimaníaco encontrará com facilidade em Toby Dammit elementos dos principais filmes anteriores do diretor, como os já citados A Doce Vida e o autobiográfico 81/2. O estilo visual é o que se espera de Fellini e o filme ganha com a sempre inspirada trilha musical de Nino Rota.

Parece que Fellini, com seu gênio é, dos três diretores, aquele que melhor captou a essência delirante do texto de Poe. Algo também os aproximava – o “subtexto” psicanalítico da obra do escritor, que encontrava eco num momento da vida de Fellini em que o inconsciente, os sonhos, os desejos reprimidos ganhavam particular importância. Fellini aproximava-se da psicanálise, mas, ainda mais das teorias de Jung, com as quais dialogava com mais facilidade. Segundo o clima da época, também se mostrava inclinado a experiências com drogas, em particular o LSD. Esse é o clima do filme – lisérgico, em todos os sentidos do termo.

A então assistente de direção Liliana Betti, que escreveu um livro sobre Tre Passi nel Delirio, conta que, depois de terminada a filmagem, que durou quase um mês, Fellini convidou Nino Rota para jantar. Durante a refeição, falou com grande entusiasmo de Poe e confessou que somente havia lido o conto dois dias antes – quando o trabalho já havia terminado. Aparentemente, se a o caso for verdadeiro (com Fellini, nunca se sabe) ele havia se baseado apenas em uma breve sinopse e criado em cima do resumo. A idéia de que um blasfemo que evoca o demônio por qualquer motivo acaba por encontrá-lo fora um estímulo suficiente para sua imaginação visual. Baseada, claro, no texto de Bernardino Zapponi, que co-assina o roteiro com Fellini.

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O “diabo”, imaginado por Federico

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