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Histórias cruzadas da gente de Nova York

Luiz Zanin Oricchio

03 de novembro de 2007 | 10h53

Um ano depois do 11 de setembro, como vivem os habitantes de Nova York? Em People – Histórias de Nova York, de Danny Leiner, o que se pode dizer é que os atentados às torres gêmeas parecem apenas uma sombra que se projeta do passado para o presente. Há muito a cidade retomou seu ritmo normal e as pessoas, de que fala o título, se ocupam apenas em viver. O que já é muito.

People usa uma estrutura em que várias histórias são contadas paralelamente, com seus personagens se cruzando ali e aqui, à maneira do protótipo recente de todo esse tipo de filme que é Short Cuts, de Robert Altman. Não existe termo de comparação entre um e outro, é bom se dizer. Apenas estruturas semelhantes.

Danny Leiner trabalha com algumas boas histórias. Por exemplo, a da senhora de idade que se encontra por acaso com um ex-colega de ginásio, um tipo bon vivant, que morou na Itália, soube envelhecer e mora de frente para o mar. A comparação com a vida medíocre que leva em companhia de um marido, que agora lhe parece insatisfatório, é brutal. Esse é um dos temas humanos por excelência: a vida que poderíamos ter tido e não tivemos porque não fizemos a tempo as escolhas adequadas. Outra história: a do menino-problema, que projeta na escola a crise conjugal dos pais. Outra: uma confeiteira de casamentos chiques enfrenta uma inesperada competição. Pelas histórias humanas, tão diferentes entre si, passa um fio condutor: a busca pelo dinheiro e pelo sucesso, a partição, tão americana, das pessoas entre vencedores e perdedores. O ponto de vista do filme tenta ser humanístico – paira um pouco acima dessas contingências e preconceitos e procura relativizá-los.

Nesse sentido, a lembrança do 11 de setembro passa a ser importante. O momento em que os sinos da cidade tocam, lembrando aquele momento em que, um ano atrás, o primeiro avião foi arremessado contra o World Trade Center, é tocante, em especial. Talvez evoque um fragmento de tempo em que os vivos esquecem seus pequenos problemas e pensem nos mortos. Quer dizer, pensam em si mesmos.

(SERVIÇO)People – Histórias de Nova York (EUA/2006, 87 min.) – Comédia Dramática. 12 anos. Cotação: Regular

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