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História no cinema

Luiz Zanin Oricchio

06 de abril de 2010 | 23h37

O que queremos do passado? Esta pergunta – tão grave como singela – está por trás do projeto de A História nos Filmes/Os Filmes na História, livro de Robert A. Rosenstone (Paz e Terra, 263 págs., R$ 35, tradução de Marcello Lino). Na verdade, um tipo particular de passado – aquele trazido pelo cinema, a arte mais popular do século 20 na definição de Lenin, e que não parece ter perdido seu prestígio no século 21. Ao contrário. O nosso é o mundo do audiovisual, o universo das imagens em todos os suportes, da tela grande à telinha do celular, de modo que temas os mais variados, inclusive a interpretação do passado, têm sido cada vez mais abordados por este meio de expressão.

Rosenstone joga em duas posições. Como historiador, e autor de vários livros em sua especialidade, enfrenta colegas mais tradicionalistas – os que entendem serem os documentos a única fonte de pesquisa segura do passado. Ele, pelo contrário, confia numa história “pós-moderna”, que se vale de fontes alternativas como a cultura, o folclore e os depoimentos, a chamada história oral. Além do mais, é habitué do mundo do cinema, por uma razão muito simples: seu livro Romantic Revolutionary: a Biography of John Reed (1975) serviu como fonte para o épico hollywoodiano Reds, dirigido e interpretado por Warren Beatty.

Reds (1981) conta a história de John Reed, o americano bem-nascido que cobriu como jornalista as revoluções do México e da Rússia, e nelas se envolveu mais do que exigiria sua patente de repórter. Conheceu Pancho Villa e Zapata, Trotski e Lenin. Foi um dos fundadores do Partido Comunista americano e, depois de muitas peripécias, morreu de tifo na União Soviética, com 33 anos, sendo enterrado na Muralha do Kremlin como herói nacional. Vida romântica de um jovem que conviveu com as ideias revolucionárias no Greenwich Village no início do século e viajou em busca da revolução – a grande aventura da esquerda do século 20. Um personagem e tanto, encarnado por Warren Beatty, que escalou Diane Keaton para o papel do grande amor de Reed, Louise Bryant. No elenco há também Jack Nicholson como Eugene O”Neill, que foi amante de Louise, e Maureen Stapleton, como Emma Goldman, anarquista que se decepciona com a revolução bolchevique.

A familiaridade de Rosenstone com o projeto de Reds vai além do fato de assinar o livro que serviu de ponto de partida à produção. Trabalhou como consultor histórico nos sete anos de pré-produção e fez parte da folha de pagamento nas filmagens. Participou intimamente de todo o projeto e sua realização. O que o coloca não apenas em posição de analisar o filme de Beatty, mas de compará-lo com as outras duas versões sobre a vida do personagem – Reed, México Insurgente (1973), do mexicano Paul Leduc, e Krasnye Kolokola (1982), do soviético Sergei Bondarchuk.

São três maneiras de “interpretar” (pois é disso que se trata) o mesmo personagem, bem como o pano de fundo histórico no qual ele se move. Reed seria mais bem considerado como narrativa de formação, aquela na qual o personagem encontra seu destino e vocação. Os dois episódios de Krasnye Kolokola formam um épico, no qual o indivíduo fica em segundo plano diante dos grandes acontecimentos dos quais participa. E Reds seria uma história de amor com o fragor da revolução como pano de fundo, na qual Louise Bryant teria papel quase tão relevante quanto Reed. São recortes feitos na apreensão de uma vida, recurso inevitável tanto na “superficialidade” de um épico hollywoodiano quanto numa extensa biografia em livro, pesquisada até a exaustão. Vidas são complexas e contraditórias em excesso para serem evocadas em narrativas que exigem um mínimo de coerência em sua forma. Esse é o grande desafio biográfico, na tela ou na letra de forma.

Nessa empreitada de interpretação histórica e biográfica, o cinema tem sido considerado “menor”, preconceito no qual o próprio Rosenstone incorre ao escrever um artigo sobre Reds, na época do lançamento, no qual critica certas liberdades tomadas pelo filme. Vinte anos depois, ele pode reavaliar sua crítica e constatar, de forma meridiana, que, “Reds não fala por intermédio da linguagem literária, mas no idioma cinematográfico. Esse é o ponto. Em sua análise, que inclui filmes do soviético Sergei Eisenstein sobre a Revolução Russa (Outubro, O Encouraçado Potemkin) ao norte-americano Oliver Stone sobre a Guerra do Vietnã (Nascido em 4 de Julho, Platoon), Rosenstone defende o discurso cinematográfico sobre a história como tão digno quanto a pesquisa histórica. O filme pode ser visto como “nova forma de pensamento histórico”, ou, como queria Marc Ferro, historiador francês, como criador de um “contradiscurso sobre o passado”. Uma nova maneira de vê-lo e revitalizá-lo. Longe de ser arte menor, o filme histórico pode ser “capaz de meditar a respeito do passado, interrogá-lo, ou explorar o que foi reprimido por histórias oficiais”.

O tema é complexo, mas filmes como JFK (Oliver Stone), A Batalha de Argel (Gillo Pontecorvo), entre outros, nos permitem de fato revisitar fatos históricos marcantes, como o assassinato de um presidente ou a guerra de libertação de um país. Não o fazem da mesma maneira que os livros da história, mas se mostram capazes de criar imagens, sequências e metáforas visuais ricas que nos ajudam a ver e pensar sobre o que existiu.

Vale dizer: evocam a história para que melhor nos situemos no tempo contemporâneo. Pois é exatamente isso que desejamos do passado.

(Sabático, 3/4/10)