História da Inteligência Brasileira
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História da Inteligência Brasileira

Luiz Zanin Oricchio

13 Novembro 2010 | 18h59

O projeto é obviamente desmesurado, para dizer tudo em uma só palavra: uma história completa da “inteligência brasileira”, cinco séculos de esforço cultural de um povo, acomodados em sete espessos volumes, mais de 4 mil páginas compactas. Falamos, já se sabe, da grande (e controversa) façanha intelectual do crítico Wilson Martins (1921-2010), agora reeditada pela UEPG (Editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa).

Martins, crítico literário de vários jornais, 30 anos no Estadão, brasilianista na New York University e estudioso global da cultura, dá na História da Inteligência Brasileira o máximo de si, seu passo maior. Capta os primeiros sinais da inteligência nacional em 1555 “quando o padre Leonardo Nunes inicia os estudos rudimentares de latim no Colégio dos Meninos de Jesus, em São Vicente” e a dá seu trabalho por findo em 1960. Não porque a inteligência tenha sido abolida no começo da década mais convulsiva da cultura mundial no século 20, mas justamente porque se havia desenvolvido a tal ponto que ficava difícil acompanhá-la. Mesmo para um titã do pensamento, como alguns consideram Wilson Martins, com sua prodigiosa capacidade de leitura e não menos invejável disposição para a escrita.

Sobre essas qualidades, há controvérsias, como se costuma dizer, meio cinicamente, nas redações de jornais. Para se dar o justo valor da História da Inteligência Brasileira, não é preciso negar que nem todos apreciaram o esforço do crítico em dar conta dessa súmula tão heteróclita e complexa da aventura intelectual de um povo, que parece saída da pena de uma síntese de Bouvard e Pécuchet, os personagens de Flaubert empenhados em dominar o conhecimento completo do mundo.

Muitas foram as objeções ao projeto de Martins e à sua forma de concretizá-lo. Por exemplo, em 1979, o professor Silviano Santiago reconhece que a História é “em termos quantitativos, o empreendimento individual mais ambicioso redigido por um brasileiro”. Mas se queixa de que seu conceito básico é eurocêntrico e institucional: “Elitista e livresca, idealista e bacharelesca, a inteligência só se exprime em português correto e literário”. Assim, não é surpresa que a certidão de nascimento da cultura nacional seja assinalada por uma aula de latim. É que a “inteligência” de Martins se restringe ao mundo dos livros. Não pode assimilar ao projeto uma cultura autóctone e não-escrita, como a dos indígenas que aqui habitavam na chegada dos colonizadores. Santiago também se queixa da ausência de método numa história que se faz por acumulação e empilhamento. Nela, tudo cabe: “Antigos artigos de Martins são incorporados à “História” com a sem-cerimônia apontada no tocante ao aparato conceitual”.

José Guilherme Merquior foi outro pensador que fez restrições à História da Inteligência Brasileira. Merquior diz que chegou a saudar o projeto, mas decepcionou-se com o resultado: “Revela a mais aflitiva falta de familiaridade com a história do pensamento e as técnicas de análise ideológica”. Talvez para se vingar de Martins ter escrito mal de seus livros, Merquior aguça o florete e despacha o adversário com a frase lapidar: “Historiador das ideias, Martins não as tem”. Touché.

Essas considerações desfavoráveis não impediam que Martins tivesse seus admiradores entre intelectuais do porte de José Paulo Paes, do escritor Miguel Sanches Neto e do jornalista Paulo Francis. O volume e a ousadia do empreendimento faziam com que idiossincrasias de Martins fossem perdoadas, como por exemplo, o conservadorismo político e estético e a baixa estima que tinha por unanimidades nacionais como o poeta João Cabral de Melo Neto e o dramaturgo Nelson Rodrigues, a quem acusava de praticar uma “psicanálise de amador”. É bom lembrar que nem mesmo a morte, que no Brasil, de modo geral, encerra a polêmica em torno de um personagem, foi capaz de tirar o nome de Martins do centro da controvérsia. Prova disso foi o artigo quem Flora Sussekind analisa os obituários a ele dedicados e conclui pelo conservadorismo da crítica literária contemporânea. Deve-se lembrar que houve respostas ao ensaio de Flora, mostrando que, mesmo depois de morto, Martins continuou a despertar controvérsias.

E assim prosseguirá por algum tempo o balanço de sua memória, em especial por ocasião de algum relançamento importante, como é o caso desta História da Inteligência Brasileira. Deixando entre parênteses a impressão causada pelo porte do projeto, nota-se o princípio exaustivo que o inspira. Martins usa e abusa da paráfrase e da citação. Faz uma compilação imensa do que se publicou de época em época, períodos enfileirados como vagões de um trem, por uma cronologia obediente. A compulsão de obras não vem a seco. Treinado por uma disciplina do comentário, que ele praticou desde sempre em seus rodapés literários, Martins comenta, ironiza, polemiza. Como escrevia de maneira clara e direta, a prosa tem sabor. Falta-lhe a consciência metodológica que lhe permitiria interpretar com maior profundidade, contextualizar e tirar conclusões mais gerais. Mas História da inteligência Brasileira fica como testemunho e compêndio de uma época da nossa cultura. De várias épocas, na verdade.