Herbert (bem) de Perto
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Herbert (bem) de Perto

Luiz Zanin Oricchio

09 de outubro de 2009 | 18h17

herbert

Diferente dos inúmeros filmes sobre música ou músicos que vêm surgindo, Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, apresenta um aspecto adicional. Além de falar de um ídolo – Herbert Vianna – aborda também uma extraordinária história de superação pessoal de um trauma. Como todos lembram, o líder dos Paralamas do Sucesso foi vítima de um acidente de ultraleve em fevereiro de 2001, no qual perdeu a mulher, Lucy, e ficou muito ferido. Em boa medida, o filme é a história dessa recuperação.

Existe uma estratégia de montagem da obra, que faz do acidente o divisor de águas (não cronológico) de uma história pessoal. Um antes e um depois, como muitas vezes se vê na ficção: uma linha de vida que segue até certo ponto, quando então acontece alguma coisa grave e tudo se altera. Assim também sucedeu com Herbert Vianna e o documentário é bastante agudo ao trabalhar sobre dois polos distintos, com esse ponto de não retorno entre eles.

Então, há uma faceta, a juventude descompromissada, os anos de formação da banda, a irreverência juvenil, o contato com o sucesso. Depois do acidente, a narrativa da comoção dos fãs (e dos não fãs também), os maus prognósticos, o sofrimento, a lenta recuperação e a volta. Se a história de Herbert não tivesse acontecido de verdade, poderia ter sido inventada como ilustração de um formato ideal de roteiro para filme de sucesso. Exposição do personagem, êxito, queda, enfrentamento de dificuldades extremas, superação. De alguma forma, essa biografia poderia entrar como ilustração às teses cinematográficas de Christopher Vogler baseadas na teoria dos “monomitos” de Joseph Campbell. Narrativa exemplar, como a de um mito, que nos atinge a todos, porque fala algo ao nosso inconsciente.

É dessa maneira que Herbert de Perto pode superar, e de muito, o interesse mais restrito dos fãs da banda ou do rock brasileiro. Por sua história de vida, Herbert tornou-se, digamos, universal. Foi o que se viu no Festival de Paulínia, onde o filme foi apresentado ao público pela primeira vez. Uma decisão inteligente da organização do evento fez com que o documentário fosse projetado e, em seguida, houvesse um show ao vivo dos Paralamas, e no mesmo teatro. As imagens vistas na tela serviram como preparação ao espetáculo que, dessa maneira, se tornou inesquecível – mesmo para aqueles que jamais teriam escolhido um CD dos Paralamas para ouvir em suas casas.

É verdade que, em meio à estrutura bem pensada do filme (e tristemente proporcionada pela realidade) estão as músicas dos Paralamas, para quem já delas gosta ou para quem se dispõe a descobri-las. E não é um efeito negligenciável do documentário conduzir essa descoberta através do personagem que se constrói na tela. A parte musical já está bem comentada aí ao lado. Quanto ao cinema, seria preciso destacar quanto o filme é bem montado, como aproveita (bem) o material de arquivo e o mescla às imagens contemporâneas para produzir os efeitos que deseja sobre o público.

Herbert de Perto acaba sendo uma bela história humana, e não apenas por seu personagem principal. Fica claro que ele escapou da condição muito grave não apenas por sua força de vontade, mas porque se construiu à sua volta uma notável rede de solidariedade. Formada pelos familiares e por seus companheiros de banda. Era preciso que Herbert voltasse, mesmo contra todo o prognóstico. Várias mãos se mobilizaram para isso, o que torna o filme ainda mais tocante porque acaba sendo um pouco comum história de amizade e solidariedade. Tudo aquilo que, pensamos, faz falta em nosso mundo pragmático e interesseiro.

(Caderno 2, 9/10/09)

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