Hemingway e cinema: feitos um para o outro
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Hemingway e cinema: feitos um para o outro

Luiz Zanin Oricchio

28 Setembro 2013 | 10h03

 

Há 67 menções a Ernest Hemingway no site IMDB (International Movie Data Base), especializado em cinema. Isso não significa que 67 filmes tenham sido feitos a partir de suas obras, porque entre elas há muitas repetições. Alguns dos seus textos foram adaptados várias vezes, como Os Assassinos (The Killers), tanto para o cinema como para a TV. Mas, entre essas várias versões, a que temos reter é a de 1946, um dos mais perfeitos exemplares do cinema noir.

Existe, assim, um conjunto de filmes bastante sólido, construído a partir de obra que parece bastante propícia para ser vertida para o cinema. Basta lembrar de títulos como Adeus às Armas (1932), Por quem os Sinos Dobram (1943), Uma Aventura na Martinica (1944), As Neves do Kilimanjaro (1952) ou O Velho e o Mar (1952) para comprovar que o cinema e Hemingway nasceram um para o outro.

Não que todos esses filmes sejam obras-primas. Não são. Pelo menos, nem todos. Mas respiram aquela ambiência que escritor conseguia criar em sua literatura. Um clima másculo, intenso, envolvente, como se viver fosse de fato algo mágico, mesmo nas condições mais adversas, diante do perigo. Não importa a situação descrita. Podia ser uma lembrança de guerra autobiográfica como a de Adeus às Armas. Ou levemente fantasiosa e romântica, como em Por quem os Sinos Dobram, evocação da Guerra Civil Espanhola. Ou a voz interior de um escritor que relembra sua vida enquanto agoniza na África, como em As Neves do Kilimanjaro. Ou o encontro entre um casal mítico – Humphrey Bogart e Laureen Bacall numa situação de perigo, propícia ao romance,  como em Uma Aventura na Martinica. Ou ainda a comovente, e inútil, batalha de um pescador cubano, Santiago, contra um tubarão em O Velho e o Mar, livro que deu o Nobel ao escritor e cuja venda de direitos ao cinema lhe forneceu os meios para comprar sua chácara em Havana, a famosa Finca Vigía, hoje um museu. Lá morou durante alguns anos.

Qual o melhor Hemingway nas telas? Claro, a resposta depende do gosto do freguês, e também do seu conhecimento do cinema. Há quem prefira o tom meloso e algo romântico de Por quem Dobram os Sinos, de Sam Wood, com o trágico namoro entre Gary Cooper e Ingrid Bergman nas linhas de resistência às tropas fascistas. E, críticas à parte, quem resiste a Katina Paxinou como Pilar, personagem decalcada de Dolores Ibarrúri, La Pasionária? Mas há o toque inigualável de Howard Hawks impresso em Uma Aventura na Martinica. Sem contar que se trata da estreia de uma deusa do cinema, Laureen Bacall, que, durante filmagens envolveu-se com Bogart, início de um casamento que durou até a morte dele. A dramática beleza de O Velho e o Mar, de John Sturges (narração de Spencer Tracy) não deixa ninguém indiferente.

Mas existe quem ponha acima de todos Assassinos, de Robert Siodmak, um dos mais significativos exemplares do cinema noir. O drama é bastante misterioso em seu princípio. Mostra um homem esperando passivamente por seus assassinos. No desenrolar da trama, um corretor de seguros tentará decifrar seu enigma. No elenco, a dupla Burt Lancaster e Ava Gardner, num clima noir como poucas vezes se viu no cinema. O interessante é que este filme de 103 minutos foi obtido a partir das poucas páginas de um dos mais breves relatos de Hemingway.

Esses filmes, muito diferentes entre si, expressam a adequação do texto de Hemingway para a adaptação cinematográfica. Todo mundo conhece aqueles breves preceitos do escritor a respeito da arte de escrever: ater-se ao ponto e cortar todo o resto; fazer do texto um iceberg do qual apenas 10% aparecem na superfície, os outros 90%, submersos, ficando por conta da imaginação do leitor. Tanto a concisão como esse espaço concedido à recriação fazem desses textos excelentes matérias primas para o cinema. Além de serem, é claro, ótimas histórias.