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Hebe

Luiz Zanin Oricchio

29 de setembro de 2012 | 18h45

 

Como escreveu um amigo, os obituários de Hebe Camargo não podem esquecer que ela marchou “com Deus e pela família” em 1964, pedindo a derrubada do governo Goulart, o que levou à ditadura. Foi também apoiadora de primeira hora de Paulo Maluf.

Não são atos privados. São atos públicos. Pelos quais uma parcela da população brasileira pode até amá-la ainda mais. Outra parcela, entre a qual me incluo, não. O que isso quer dizer? Nada, senão que uma longa vida é cheia de contradições e tomadas de posições que muita gente pode achar equivocadas, como é meu caso.

No entanto, o fundamental é constatarmos que Hebe foi uma presença constante na vida da maioria de nós, independente do que pensemos em matéria de política, ou de outras coisas. É uma lembrança de infância, nada menos. E tendemos a idealizar essas lembranças. Ou, pelo menos, mantemos carinho por essas figuras que nos parecem representar uma época de inocência Da nossa inocência, ao menos.

Lembro-me dela, em seu sofá, entrevistando personalidades como o dr. Christian Barnard, autor do primeiro transplante do coração. Outro amigo lembrou-se de que, nessa entrevista, ela perguntou ao cirurgião se no caso de um homem receber o coração de uma mulher ele poderia apaixonar-se pelo Frank Sinatra. Talvez, e aqui a memória pode me trair, acho que ela perguntou a outro médico, quem sabe o dr. Zerbini, que descrevia o que poderia ser um coração artificial, se ele funcionaria mais ou menos como um radinho de pilha. O médico ficou desconcertado.

Não sei se essas perguntas simplórias, das quais todos ríamos, eram fruto de algo muito estudado. Pode ser. Mas parecia espontâneo. E aí talvez residisse o segredo de Hebe. Alegre,  ingênua ou às vezes maliciosa mas sem exagerar, fazia o papel de uma dona de casa que tinha dado certo no show biz e era acessível a todos e todas, simpática com todo mundo. Nunca ninguém se sentiu inferior a Hebe Camargo. Isso é vital em TV. Se alguém parece antipático ou nariz em pé, dançou.

Com ela, e outros que já se foram antes, como Golias, Chico Anysio e, em parte, Ted Boy Marino, para falar na perda mais recente antes da dela, vai-se toda uma época da TV brasileira, dos primórdios até agora.

O fato de, entre todos, Hebe ter-se mantido à tona, e estar assinando contrato e fazendo planos à véspera de morrer, faz dela uma vencedora. E figura inesquecível. Descanse em paz.

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