Hebe e a questão da maquiagem histórica
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Hebe e a questão da maquiagem histórica

Luiz Zanin Oricchio

26 de setembro de 2019 | 12h08

Andrea Beltrão em Hebe, a Estrela do Brasil

 

Há uma certa tendência de embelezamento biográfico no cinema brasileiro que recria a vida de celebridades. Tem sido assim com Simonal e Chacrinha, e é assim, agora, com este Hebe – a Estrela do Brasil, de Maurício Farias.

A estrela, você já sabe, é Hebe Camargo (1929-2012), a mais famosa apresentadora de TV do país. Hebe era conhecida tanto pela espontaneidade quanto pelas bobagens que falava em público. Uma vez recebeu em seu sofá televisivo o cirurgião sul-africano Christian Barnard, responsável pelo primeiro transplante cardíaco, e lhe perguntou se um coração artificial funcionava como “uma espécie de radinho de pilha”. Pérolas como estas podem ser garimpadas à vontade na biografia de Hebe. Mas, graças a seu carisma, essa simplicidade a aproximava das pessoas comuns e fazia parte de sua aura.

No filme, Hebe, interpretada por Andréa Beltrão, é vista enfrentando problemas com a censura quando trabalhava na TV Bandeirantes. Demite-se ao se ver obrigada a fazer o programa gravado, para que partes consideradas impróprias pudessem ser cortadas na edição. Vai para o SBT, de Silvio Santos, com a promessa de liberdade total. Na vida pessoal, é retratada aos tapas e beijos com seu marido, o empresário Lélio Ravagnani, interpretado por Marco Ricca e retratado como ciumento compulsivo. O casal mora com o filho de Hebe de outro casamento, Marcelo Capuano.

No filme, o perfil de Hebe é esculpido como o de uma lutadora contra a censura e defensora dos gays e de outras minorias. Também é paladina na denúncia da incompetência e corrupção dos políticos – o que procede, tendo sido processada por injúrias ao Congresso, processo depois retirado. Em favor do perfil traçado, deve-se reconhecer que seu longo apoio ao amigo Paulo Maluf jamais é escondido. Nem os hectolitros de uísque que costumava ingerir, em companhia de amigas, do marido ou no camarim.

Procura-se também reproduzir com fidelidade a estética rico-kitsch em que a diva se movia, ambiente típico da classe afluente paulistana. Apesar de se dizer popular e vinda da pobreza, Hebe gostava mesmo era da riqueza, brilho, roupas e penteados extravagantes e toneladas de joias penduradas pelo corpo. Era uma “rainha”, como dizia seu cabeleireiro favorito, vítima de Aids. E, como tal é retratada. Uma rainha com percalços na vida profissional e pessoal, mas ainda assim soberana e vencedora, como manda um perfil biográfico positivo. Andréa Beltrão, olhando para a câmera ao som de Fascination, nos diz isso. Tudo valeu a pena.

Adendo

Gostaria de acrescentar um adendo a esse post, colocado agora, após as 16h. Durante o debate com a equipe de Hebe, meu colega Luiz Carlos Merten aproveitou-se para formular sua pergunta de uma conversa que havíamos tido sobre o filme no jantar após a sessão. Ele disse que uma pessoa (no caso eu), havia dito que ele (Maurício Farias) seria o inventor do photoshop biográfico. Eu não disse exatamente isso. Disse que havia uma tendência brasileira em submeter personagens a um photoshop cinematográfico nas cinebiografias. Que isso era visto nos filmes sobre Chacrinha, Simonal e, entre outros, agora em Hebe. Há mesmo algo a se pensar sobre o caso.

Primeiro, de fato, o que se tem quando se leva um personagem à tela é menos uma “biografia” e mais um perfil. Ou seja, escolhe-se um período de vida determinado, um recorte de fatos e um ângulo favorável para apresentá-los. A honestidade obriga que fatos polêmicos não sejam escondidos. Eles comparecem, em geral em doses homeopáticas, e com reinterpretações atenuantes. Desse modo, o filme não pode ser acusado de esconder fatos desabonadores, mas também não compromete a boa imagem do personagem. É uma forma sutil de distorção.

Por outro lado, os cineastas argumentam que se trata de ficção e que determinados fatos podem ser rearranjados para efeitos dramáticos. Certo. Trata-se, portanto, de uma defesa em dois níveis. Primeiro, afirmar que tudo aconteceu. Segundo, afirmar que se nem tudo aconteceu do jeito que está na tela, é porque se trata de ficção e nela a invenção é livre. Dois níveis, que se auto-contradizem.

Ao tratar de fatos e personagens com existência real, me parece que o artista mantenha uma conexão ética com a realidade histórica. A não ser que, explicitamente, faça uma “ficção histórica”, à maneira de Tarantino, que pode matar Hitler num atentado ou poupar Sharon Tate do massacre, ao seu bel prazer de ficcionista.

Mas não se trata do caso aqui. Apesar de ficcionais, esses filmes pretendem falar a “verdade” sobre os personagens. Daí que, claro, a liberdade de criação é sagrada, mas o artista (o cineasta, o roteirista), no caso responsabiliza-se pela versão que apresenta. E, portanto, pode ser cobrado por quem entende que a verdade histórica (estabelecida por fatos, documentos e testemunhos) deve ser mantida.

A relação entre cinema e História (com agá maiúsculo) está longe de ser clara, ou ser fácil. Mas as pessoas envolvidas não parecem querer perder tempo com esse tipo de reflexão.

* Matéria escrita durante o Festival de Gramado de 2019

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