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Hawks total para cinéfilos cordon bleu

Luiz Zanin Oricchio

03 de julho de 2013 | 10h45

Para alguns, ele é o cineasta moderno por excelência. Howard Hawks (1896-1977), o grande diretor americano, ganha retrospectiva completa de hoje a 30 no Centro Cultural São Paulo. Cinéfilos devem alterar o endereço e mudar, com seus pertences, para a Rua Vergueiro 1.000. A mostra é imperdível.

 

Começa, para se ter ideia, com três atrações exemplares – Scarface – A Vergonha de Uma Nação (1932), Uma Aventura na Martinica (1944) e Onde Começa o Inferno (1959). Dizendo de maneira simples: Scarface é o modelo dos filmes de gângsteres dos anos seguintes, Aventura na Martinica, um dos mais divertido já feitos, e Onde Começa o Inferno, o western que melhor ocupou o vazio de ação.

Mas sua grandeza teve de ser descoberta pela crítica para que se estabelecesse no cânone cinematográfico. Esse foi o trabalho dos então rapazes dos Cahiers du Cinéma que, batendo-se contra o cinema francês então vigente, resgataram o cinema americano tido como comercial. Naqueles embates dos anos 1950, os “jeunes turcs” dos Cahiers entronizaram alguns autores, em especial Hitchcock e Hawks. Diretores que, dentro da indústria, isto é, trabalhando com o cinema comercial, conseguiam imprimir sua marca e expressar uma visão de mundo.

Composta de 40 títulos, a mostra Howard Hawks Integral, cumpre o que afirma o título. Todas as obras do diretor, inclusive algumas menos conhecidas e não lançadas no Brasil. Hawks passou por diversos gêneros – comédia (Levada da Breca), noir (À Beira do Abismo), guerra (Sargento York), faroeste (Rio Vermelho). Pode-se dizer que jogava bem em todas as posições. Por algumas razões, como o domínio artesanal do instrumento, o conhecimento da indústria e dos macetes que faziam constrangimentos comerciais jogarem a seu favor.

Encontra-se muita diversidade na trajetória. De obras-primas a filmes menos felizes, embora devotos hawksianos não admitam disparidades de nível. Esse será outro serviço da mostra: exibir a filmografia em sequência, de modo que se possa comparar um trabalho com outro e concluir, pela própria cabeça, quais os pontos altos e os baixos, se é que eles existem.

De qualquer forma, cineastas de gênio, como John Ford, Nicholas Ray e Billy Wilder, conseguiam, dentro de projetos às vezes ingratos, imprimir seu “toque” pessoal e intransferível. No caso de Hawks, uma câmera na altura do olhos, como a dizer que todos os homens são iguais, e hierarquias são meras convenções sociais. Cinema humanista, em todo caso, pois o sentido do humanismo é sempre igualitário em seu fundo.

Por outro lado, essa sucessão de mostras na cidade permite comparações interessantes. Quem se divertiu com a sátira do jornalismo A Primeira Página, de Wilder, terá tudo a lucrar em ver Jejum de Amor, de Howard Hawks. Por quê? Os dois baseiam-se na mesma peça teatral The Front Page, de Ben Hecht. Com a diferença de que o repórter invasivo Hindy Johnson, vivido por Jack Lemmon em Billy Wilder, em Hawks é interpretado por uma mulher, Rosalind Russell. Interessante, não?

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