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Guerra dos Botões, metáfora antibélica sempre atual

Luiz Zanin Oricchio

08 Julho 2012 | 14h14

 

 

Um velho texto clássico, que já deu vários filmes (o mais famoso é o de Yves Robert, de 1962), prova que ainda está novo em folha, tinindo e trincando. É A Guerra dos Botões, de Louis Pergaud (1882-1915), que simula, no mundo das crianças, o conflito bem real do mundo dos adultos. Escrito às vésperas da 1.ª Guerra Mundial, aquela que roubou ao orgulho europeu o conceito de civilização, é um dos pontos referenciais da literatura antibélica, tanto assim que esta é a quinta versão do livro para o cinema.

Nesta nova adaptação, de Yann Samuell, o conflito de fundo é a Guerra da Argélia, traumática para a França – e mais ainda para os argelinos, claro. Mas é uma alusão sutil, pouco didática, que apenas dá moldura às peripécias das turmas de moleques no interior da França. Como costuma acontecer, a rixa entre dois vilarejos vizinhos põe fermento na (natural?) rivalidade entre grupos de crianças.

O filme é cheio de alusões. Além da briga de turmas emular – e com isso criticar – a sangrenta guerra dos adultos, há toda uma série de referências às angústias da pré-adolescência e ao despertar da sexualidade. Parece meio óbvio constatar que a humilhação máxima, cortar os botões da blusa do adversário, remete à angústia de castração de que falava nosso amigo Freud. E a intromissão de uma garota espevitada no clube do Bolinha de uma das gangues, mais que concessão feminista, expressa a sutil sexualidade que vem chegando aos poucos em garotos ainda pouco crescidos. No fundo, abre uma alternativa de sociabilidade com a qual eles ainda não contavam.

Em termos de rendimento cinematográfico, o filme deixa um pouco a desejar. É visualmente previsível, embora não deixe de ter esse encanto pastoril do contato com a França profunda, do interior, não parisiense. Há certo frescor na filmagem. As crianças são bem dirigidas, e sabemos como isso é difícil de fazer. Os conflitos entre adultos e, em especial, entre os professores, não mostram a mesma graça. Mais interessante é o relacionamento de um dos garotos, justamente o líder de uma das facções, com a mãe (a bela Mathilde Seigner), viúva e preocupada com o futuro material dos filhos. Não escapa aos olhos do diretor o quadro de dificuldades econômicas do interior francês no final dos anos 50 e início dos 60, quando ainda sofre os efeitos da 2.ª Guerra.

A guerra, sempre ela. Todos somos contra. O problema é defender um pacifismo que não seja ingênuo. Ou seja, que leve em conta o horror e, ao mesmo tempo, a permanência da postura bélica ao longo da aventura humana. O cinema francês tem prática no assunto com uma obra-prima referencial como A Grande Ilusão, de Jean Renoir. A Guerra dos Botões é uma pequena e singela contribuição ao debate do tema.

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