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Gringos em Havana

Luiz Zanin Oricchio

16 de dezembro de 2006 | 14h48

Chegou ao final o Festival de Havana, com boa vitória dos brasileiros, como vocês já sabem a esta altura do campeonato. Vi muitos filmes por aqui, além dos 18 longas e quase 30 curtas que faziam parte do meu dever de casa como jurado de ficção. Um bom panorama do cinema latino-americano contemporâneo, que comentarei depois. Por ora estou começando a fazer a fatídica mala para o regresso. Amanhã viajo para o Brasil e chego na segunda-feira, retomando a vida normal. Fiquei em dívida com algumas pessoas que me fazem o favor de freqüentar este blog e deixaram comentários que mereceriam respostas ou pediram informações. Pago essas dívidas na volta, sem falta; aqui, pressionado pela lentidão e alto preço da internet, me limitei a postar alguma coisa e responder a e-mails mais urgentes. O cidadão conectado sofre em Cuba.
A festa de encerramento, no lotado Teatro Karl Marx, foi meio fria, um pouco pelo cerimonial despojado demais, outro tanto porque a comunidade cinematográfica já sabia quem havia sido premiado e quem não, pois o resultado fora divulgado aqui ao meio-dia, 15h aí. Depois dos prêmios, apresentaram o belo Volver, de Pedro Almodóvar, que revi com prazer. Não sei se continua aí em cartaz. Caso positivo, e se não tiver visto, não perca. Acho que Almodóvar é o diretor que mais bem sabe dosar a carga de emoção de um filme, arte rara hoje dia, quando o cinema ou apela para a pieguice ou cai em seu oposto, o cerebralismo estéril. Almodóvar é o cineasta do coração humano e também da alma feminina. E se alguém achar que falei dois chavões, tant pis, como dizem os franceses.

Observo a presença de muitos americanos aqui em Havana, muitos mais do que quando estive aqui pela última vez. Soube que fizeram uma pesquisa nos Estados Unidos sobre o país que as pessoas mais tinham vontade de conhecer – e deu Cuba na cabeça, o que é compreensível por vários motivos, entre os quais a atração que sempre exerce o fruto proibido. De qualquer forma, os cidadãos americanos, impedidos pela lei de virem a Cuba, dão um jeitinho, viajando para outros países e neles conseguindo visto de entrada para a ilha.

Dez cidadãos norte-americanos não precisaram fazer tanto esforço para visitar Havana – são senadores, republicanos e democratas, que estão aqui hospedados no Hotel Nacional. Aliás, por causa deles (razões de segurança, of course), a festa planejada para o encerramento do festival não pôde ser realizada no hotel. A festa havia sido planejada para um espaço aberto chamado La Cecilia, mas choveu demais durante a tarde e os jardins do restaurante viraram um lamaçal. Pensaram em transferir para o Nacional, mas havia os senadores. Então, nada de festa.

Bem, a delegação americana, segundo leio no Granma, integra o Grupo de Trabalho sobre Cuba no Congresso dos Estados Unidos. Essa comissão tem interesse em modificar a política americana em relação à ilha, com o fim das restrições às viagens, levantamento de entraves ao comércio entre as duas nações, etc. É a primeira visita de congressistas a Cuba desde as eleições americanas de 7 de novembro. Essa distensão, se houver, como tudo indica que haverá, deve ser lenta. Não sei se seria possível reverter de uma hora para outra o clima de guerra fria, tipo anos 60, que ainda se sente por aqui. Basta passar em frente ao escritório norte-americano para assuntos comerciais, um edifício modernoso à beira-mar, aqui mesmo no Vedado. Em frente ao escritório, os cubanos colocaram outdoors retratando Bush como se fosse um vampiro e exigindo a soltura de cinco cubanos presos nos Estados Unidos, lá acusados de espionagem e terrorismo, aqui tratados como heróis nacionais e antiterroristas.
Outro americano que passou por aqui fazendo um barulho dos diabos foi o escritor Gore Vidal, de 81 anos. Vidal encontrou-se com colegas cubanos e participou de um debate na Casa de las Americas, onde detonou o governo Bush, chamando-o de “ilegal e inconstitucional”. Para Vidal, depois do 11 de setembro houve uma espécie de golpe de Estado em seu país, que demorará duas gerações para ser revertido. Claro que os jornais locais deram amplo espaço às declarações de Vidal.

E também destacaram bem o resultado do Festival, favorável ao Brasil. Colheita brasileira de Corais – manchetou o Granma, referindo-se ao grande número de troféus Coral conquistados por filmes do nosso país, em especial para o vitorioso Céu de Suely, de Karim Aïnouz. Karim não estava. Mas a protagonista do filme, Hermila Guedes, que ganhou o Coral de melhor atriz, recebeu os prêmios, expressando-se em gracioso portunhol. Fiquei feliz, por ela e pelo cinema brasileiro.

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