‘Green Book’ desbanca ‘Roma’ e ganha o Oscar principal
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘Green Book’ desbanca ‘Roma’ e ganha o Oscar principal

Luiz Zanin Oricchio

25 de fevereiro de 2019 | 01h25

Pois é, e deu Green Book, desbancando o favorito Roma. A meu ver, foi a solução mais conservadora, embora o filme vencedor tenha qualidades. E, claro, Roma ficou com os troféus de diretor, fotografia e filme estrangeiro. Esperava-se mais. Mas, na hora agá, Hollywood deu um passo em falso.

 

Comentários Oscar 2019

Melhor filme: Green Book. O filme é ok, bonito e tudo mais. Mas, claro, Hollywood perde a ocasião de fazer história com Roma, obviamente a melhor escolha. Ou de uma subversão, como Infiltrado na Klan, ou mesmo Pantera Negra, para não falar de Vice. A opção por Green Book foi a mais tímida possível, embora, repita-se, o filme tenha qualidades. Faltou grandeza e ousadia a Hollywood. Apostava-se muito neste Oscar, da “virada”, da diversidade, etc. mas, com este resultado na categoria principal, a sensação que fica é de decepção.  

Direção: Alfonso Cuarón, por Roma. Era mesmo o favorito e tem a significação de receber das mãos do conterrâneo Guillermo del Toro. Havia alternativas, mas dificilmente se encontraria um filme mais bem dirigido, com tanta inspiração e rigor como Roma. Muito merecido.

Atriz: Olivia Colman, por A Favorita. Olivia está incrível como a rainha Anne, mas tudo indicava Glenn Close como a virtual premiada. É uma zebra. Embora, considerando a coisa em si, seja um Oscar muito merecido. É um papel difícil porque ela representa uma rainha em tese muito poderosa, mas cheia de dúvidas e fragilidades. Um trabalho de sutilezas e também de paixão, entrega e…um pouco de loucura. Ok, mas não era esperado.

Ator: Rami Malek por Bohemian Rhapsody. Era mesmo um dos favoritos, mas acontece que o trabalho de Christian Bale em Vice é fabuloso. Isso para não falar no de Willem Dafoe como Vincent Van Gogh em O Portal da Eternidade. Enfim, questão de preferência, mas ninguém pode dizer que Malek está ruim. Pelo contrário, faz um Mercury bem convincente, cheio de energia e carisma.

Melhor roteiro original: Green Book. Um prêmio importante para Green Book, embora talvez houvesse opções melhores, como Vice ou o próprio Roma. Em todo caso, é um bom roteiro, que causou certa polêmica ao se afastar, segundo dizem, da história verdadeira do relacionamento entre o músico negro e seu motorista branco. Mas, ora, ninguém é obrigado a seguir a verdade ao pé da letra e o cinema, mesmo quando quer ser verdadeiro, pode se dar ao luxo de ser ficcional.

Melhor roteiro adaptado: Infiltrado na Klan. Oscar para o filme de Spike Lee, um dos grandes cineastas do nosso tempo e sempre ignorado em Hollywood. Aqui, ele traz a história (incrível porém verdadeira) do policial negro que consegue se infiltrar na organização racista Ku Klux Klan. Lee faz um discurso muito emocionado ao receber a estatueta, exaltando seus ancestrais, que construíram o país, mesmo sob condições terríveis. “Vamos fazer a coisa certa”, disse, referindo-se ao seu antológico filme e, claro, fazendo um chamado para as próximas eleições nos Estados Unidos.  

 

Melhor atriz coadjuvante: Regina King, de Se a Rua Beale Falasse. Era mesmo a favorita, numa categoria disputada. Está muito bem como a mulher que faz de tudo para livrar o genro de uma prisão injusta. O filme é baseado na obra de James Baldwin e é um dos que põem em pauta a questão racial nos Estados Unidos (e no mundo todo). Embora ambientado no passado, fala do presente.

Melhor documentário: Free Solo, história de uma proeza de alpinismo, que rivalizava com RBG, história da juíza liberal e feminista, que também era uma das favoritas.

Maquiagem e penteado: Vice, primeiro Oscar para a trajetória do vice-presidente Dick Cheney, interpretado por Christian Bale, cuja maquiagem deve ter sido a grande responsável por este prêmio. Mas não apenas, pois o resto do elenco teve de ser “transformado” ao longo do tempo em que a história se dá. Tecnicamente é muito bom. E, cá entre nós, é uma paulada política, ao retratar os bastidores da política americana no tempo de Bush.

Trilha sonora: Pantera Negra. Ludwig Goransson faz mesmo um bom trabalho, utilizando ritmos e músicas africanas em sua composição. É sua primeira indicação e já ganhou de cara. Tem estrela.

Canção original: Shallow, com Lady Gaga por Nasce uma Estrela. Era mesmo a favorita e já vinha acumulando prêmios em sua trajetória.

Figurino: Pantera Negra, figurino afro-futurista, que era de fato o mais citado por especialistas. Ruth Carter é a primeira figurinista negra a ganhar o Oscar, o que já aumenta a simbologia em torno de Pantera Negra, um filme de super-heróis que é também um libelo de afirmação racial depois do famigerado #OscarSoWhite de alguns anos atrás.

Melhor direção de arte: Pantera Negra. Mais um para Pantera Negra, também merecido, apesar de ter tantos concorrentes igualmente premiáveis. Jay Hart é também a primeira profissional negra da área a vencer um Oscar. A direção de arte, de fato, é um dos pontos fortes dessa super-produção engajada, se o termo cabe.  

Fotografia: Primeiro Oscar para Alfonso Cuarón e Roma. O diretor fez a própria direção de fotografia de seu filme. Um belíssimo trabalho em preto e branco e originalmente filmado em 65 mm, o que é uma raridade. A impressão do filme na tela grande é grandiosa, embora tenha sido produzido pela Netflix e portanto sua janela de exibição preferencial seja a televisão.

Edição de som:Bohemian Rhapsody, filme de homenagem a Freddie Mercury e o Queen, leva este Oscar, com justiça. A captação de som em shows históricos do grupo é fantástica, dando realismo a essa cinebiografia do ídolo, que comoveu o público.

Mixagem de som: Bohemian Rhapsody, de novo. Também confirma o favoritismo nesta outra categoria técnica ligada ao som, importante em qualquer filme e mais ainda numa cinebiografia de um músico e vocalista. Nesse caso, qualquer perda de de intensidade e verossimilhança sonora pode ser fatal para a produção. Valeu aqui a competência, a serviço da emoção.

Filme estrangeiro: Favoritíssimo, Roma leva mais uma estatueta. Todo mundo apostava nele, mas o fato é que a categoria tinha concorrência forte, com Guerra Fria (Polônia), Assunto de Família (Japão), Cafarnaum (Líbano) e Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha). Tudo somado, Roma era mesmo imbatível. Muito justo e Roma vai fazendo o caminho que se prevê até agora. Mas tem muito chão até a premiação final.

Montagem: Bohemian Rhapsody leva mais uma. Pode ter pesado na escolha algumas liberdades na edição da linha do tempo para contar a trajetória errática do mito Freddie Mercury, ele próprio dono de uma vida tortuosa…e brilhante. A boa montagem, entre outras coisas, destaca-se pela fluidez da narrativa. E isto se sente no filme.

Ator coadjuvante: Aqui também venceu o favorito, Mahershala Ali, por Green Book. Ele interpreta do pianista negro Don Shirley e sua relação com seu motorista branco, Viggo Mortensen. Green Book era o “famoso” guia para informar aos negros que viajavam ao Sul racista os lugares onde podiam se hospedar, abastecer o carro e comer sem se meterem em confusão. Este é mais um filme que discute o racismo e o faz com uma mensagem interessante de tolerância e capacidade de evolução da espécie. Em tempos sombrios, é um filme importante.

Animação: Homem Aranha no Aranha Verso era também o prêmio mais esperado, em sua versão muito criativa da história do Homem Aranha.

Curta de animação: Bao

Curta documentário: Period. End of Sentence

Curta-metragem: Skin

Efeitos Visuais. Primeiro Homem. Legal esse prêmio, que recria a primeira vez que o homem chegou à Lua, um triunfo tecnológico, mas também ponto importante na Guerra Fria entre as superpotências, que faziam da conquista espacial um território de disputa. O filme é bem realista e interessante.

Tudo o que sabemos sobre:

Oscar 2019