Grande Jair Rodrigues
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Grande Jair Rodrigues

Luiz Zanin Oricchio

08 de maio de 2014 | 18h29

Talvez as novíssimas gerações não tenham ideia da presença que foi Jair Rodrigues na vida das pessoas. Ok, todo mundo já escreveu ou falou isso, mas é inevitável: Jair formou com Elis Regina uma das mais fantásticas duplas de cantores da história da MPB.

É preciso qualificar um pouco isso. A MPB vinha da bossa nova em seu apelo cool. Música de apartamento, cujo símbolo maior é João Gilberto e seu violão. Música sussurrada, sofisticada, contida. Samba de câmera, se me entendem.

Jair era o oposto disso e, durante certa fase, Elis também o foi. Não por acaso Vinicius de Moraes apelidou-a de “Hélice Regina”. Parecia mesmo um helicóptero prestes a alçar voo quando se entusiasmava no palco.

Essa exuberância encontrou em Jair Rodrigues o par ideal. Era fantástico vê-los nos shows do Teatro Paramount, cantando sambas e os famosos pot-pourris (ai, meu Deus, quer coisa mais anos 60 que um pot-pourri, uma canção emendada na outra?), rindo, gesticulando, mexendo um com o outro. Jair andava de lá prá cá, frenético e gestual; ninguém entendia como o terno resistia a tanta inquietação. Chegava a plantar bananeira no palco. Nada mais anti-bossa nova e no entanto faziam parte do mesmo ambiente musical.

Depois houve Disparada, e pensavam que Jair, associado ao riso e ao deboche, levaria à ruína a canção politicamente engajada de Vandré e Theo de Barros. Que nada. Cantou-a de maneira arrebatadora. Ainda hoje é impossível pensar em Disparada a não ser na voz de Jair Rodrigues.

De modo que marcou a nossa vida. Acho ainda que o disco antológico é o Dois na Bossa, ao qual ninguém fica indiferente. Jair era alegria pura. Eu tenho vontade de dizer que gente assim não deveria morrer, mas a lei da natureza é outra. Morrem os bons e morrem os patifes. Mas estes duram mais.

Recentemente, Jair Rodrigues abriu nova vertente em sua carreira, fazendo um belo papel no cinema. Parece que já havia filmado antes, mas não um personagem complexo como o Zeca de Super-Nada, filme inquietante e original de Rubens Rewald.

Eis aí o que escrevi sobre o Super Nada:

O adjetivo para Super Nada, do cineasta e professor da USP Rubens Rewald é ‘surpreendente’. Pode-se ou não gostar do filme, mas não se pode acusá-lo de redundante ou pouco original. A surpresa começa com a escalação do elenco, na qual se vê o cantor de sambas Jair Rodrigues, que em priscas eras era chamado de “cachorrão”, e fazia parceria com Elis Regina no tempo do Fino da Bossa. Ele interpreta o papel de Zeca, ator que encarna o anti-herói Super Nada, do título. O outro personagem é Guto (Marat Descartes), ator de pequenos papéis, que sonha ser grande e faz todos os testes possíveis e imagináveis para ver se emplaca na profissão.

Rewald diz que Jair Rodrigues não era a sua ideia inicial para o papel de Zeca. Mas ao entrar no elenco, o cantor mudou por completo a concepção da história e do seu personagem. “Tornou-se mais popular, com outra entonação”, comenta o diretor. Bem, eis aí algo que os diretores em geral não admitem, que este ou aquele ator leva o seu projeto a direções diferentes. Em geral, tomam-se por demiurgos absolutos, esquecendo o caráter coletivo da fatura cinematográfica. Mas, é claro, cabe a eles dar o sentido geral da obra, sua direção e escolhas e estas incluem os atores. Que, por sua vez, modificam o projeto inicial, se tiverem alguma personalidade. E Jair Rodrigues, que não é ator profissional, tem a sua, sem qualquer dúvida. Portanto, alterou o projeto.

O que se pode e se deve dizer do filme de Rewald é que ele quase nunca caminha no sentido da expectativa do público. Surpreende, como se diz, tanto no enredo como nas opções de linguagem cinematográfica. É uma imersão no mundo dos pequenos artistas, dos espetáculos semiamadores que existem fora da grande cena das metrópoles e, talvez por sua condição marginal, abrigam o que de mais criativo nelas existe. É também uma reflexão sobre a arte, o envelhecimento do artista, o ridículo da vaidade do star system e coisas assim. Existe muito pensamento por trás de uma ação simples, porém jamais linear ou previsível. Filme para ver e rever.

 

 

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