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Grande Chabrol

Luiz Zanin Oricchio

17 de outubro de 2006 | 14h47

Outro imperdível da mostra é este A Comédia do Poder, de Claude Chabrol, mais um dos meus diretores favoritos. Chabrol vem lá de trás, da nouvelle vague, foi colega de Truffaut e Godard e é um velhote bon vivant e gourmet. Gosta de bons vinhos e boa mesa. Compreende os homens, tem experiência de vida e sabe botá-la na tela de maneira límpida. No filme, ele trabalha com sua atriz favorita, Isabelle Huppert. Ela é a juíza Jeanne, que conduz uma investigação sobre corrupção empresarial. Vai mergulhando num mundo em que o dinheiro é rei e tudo pode, e o faz de maneira implacável.
Quais as motivações dela? O bem comum, a vaidade, ou também poder, por outro caminho? Enfim, Chabrol mostra como o moralismo mais profundo pode estar estranhamente combinado com um impulso igualmente corrupto. Onde a pureza, onde o pecado? E, na sua devoção religiosa ao caso, Jeanne vê sua vida pessoal escoar pelo ralo. Fico me perguntando como seria infantil esse tema caso fosse desenvolvido em Hollywood. Aqui, ao contrário, temos cinema para gente adulta. Entre os grandes momentos da atriz, um, magnífico, quando ela parece por fim enxergar tudo de forma lúcida e nada diz, com as palavras, mas apenas pela expressão do rosto. Quando alguém lhe pergunta em seguida se iria prosseguir em seu caminho, ela apenas murmura: “qu’ils se démerdent”. Eles que se virem. Genial.

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