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Grande Ariane Ascaride

Luiz Zanin Oricchio

20 de junho de 2008 | 12h57

Grande? Ela é pequenininha, mas é imensa atriz, que eu já admirava em filmes como A Cidade Está Tranqüila e Lady Jane, ambos dirigidos por seu marido, Robert Guédiguian. Agora a tenho em alta conta como pessoa também. Ontem à noite ela respondeu a perguntas no Reserva Cultural, onde está se realizando a mostra Panorama do Cinema Francês 2008. Falou que o marido não veio porque está começando novo filme – sobre imigrantes estrangeiros que lutaram na Resistência, durante a 2ª Guerra Mundial.

Fiz uma pergunta a ela. Disse que estava em Paris em setembro do ano passado e havia ficado impressionado com a utilização pela direita de um dos mais pungentes episódios da história francesa – a execução, pelos nazistas, de jovens resistentes. Um deles, Guy Môquet, se transformou em herói nacional. Na véspera do fuzilamento, o rapaz de 17 anos, escreveu uma carta dirigida aos pais, na qual falava do seu sacrifício e de sua confiança no futuro da França. Mais de 60 anos depois, as palavras de Môquet eram apropriadas pela direita francesa da era Sarkozy e recicladas em patriotismo rastaqüera e chauvinista.

Ariane me agradeceu pela pergunta e disse que era exatamente isso. Ela e o marido estão empenhados na luta pelos desfavorecidos na França, em especial os imigrantes chamados de “sans papiers”, os sem documentos, agora ameaçados de expulsão. Ariane lembrou que esses imigrantes estavam lá em seu país realizando um tipo de trabalho que os franceses não se sentiam mais dispostos a fazer. E que imigrantes, como os sans papiers de hoje, participam da vida da nação francesa há muito tempo. Inclusive na defesa contra inimigos. Por isso, Guédiguian queria relembrar a participação desses estrangeiros na luta pela libertação durante a 2ª Guerra.

Grande Ariane, grande Guédiguian. Para eles, o cinema não é apenas uma frescurinha de cinéfilos, um assunto de esnobes ou de madames. É uma arte sofisticada, que pode, e deve, discutir os grandes problemas, os impasses, as dores e alegrias da sociedade e da vida.

Já gostava da artista; agora admiro a pessoa.

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