Gramado começa com “Fora Temer”, vaias ao ministro e um grande filme
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Gramado começa com “Fora Temer”, vaias ao ministro e um grande filme

Luiz Zanin Oricchio

27 de agosto de 2016 | 10h51

 

Sonia Braga, Kleber Mendonça e equipe. Foto de Maria do Rosário Caetano

Sonia Braga, Kleber Mendonça e equipe. Foto de Maria do Rosário Caetano

 

GRAMADO – A noite foi quente na serra gaúcha. Não apenas pela inusual onda de calor que se abateu sobre a cidade famosa pelo turismo de inverno, mas pela presença do ministro da Cultura Marcelo Calero na sala do Palácio dos Festivais. Ouviu gritos de “Fora Temer” e “ministro golpista”, além de vaias da plateia.

No palco, houve a homenagem a Sonia Braga, protagonista de Aquarius, o longa de Kleber Mendonça Filho escalado para abrir o festival, fora de concurso. Se você não esteve em Plutão nos últimos dias sabe que Aquarius está no centro de uma calorosa polêmica em torno da escolha do filme para representar o Brasil no Oscar, tarefa do MinC. Questionou-se a presença de um crítico hostil ao diretor entre os jurados e isso deflagrou a crise. Já dois jurados – Guilhere Fiúza e Ingra Lyberato – abandonaram a comissão. Os filmes Boi Neon e Mãe Só Há Uma foram retirados da disputa por seus diretores, Gabriel Mascaro e Anna Muylaert, em solidariedade a Kleber. O Minc está se vendo obrigado a remontar a comissão. Ontem, o cineasta Bruno Barreto já aceitou ocupar o lugar de Fiúza. O substituto de Ingra ainda não é conhecido.

Sonia e Bruno Barreto. Foto de Maria do Rosário Caetano

Sonia e Bruno Barreto. Foto de Maria do Rosário Caetano

Enfim, tudo isso, e mais o clima de um impeachment que, para muita gente, não passa de um golpe jurídico-parlamentar, apimentou a noite de abertura em Gramado.

No palco, Kléber foi protocolar. Quem esperava um discurso político, viu o diretor ser muito sóbrio e sucinto, apresentar seu filme e equipe e desejar a todos uma boa sessão.

Que de fato aconteceu. Beneficiado pelas ótimas condições técnicas do Palácio, Aquarius agigantou-se na tela. É um filme maravilhoso, cheio de nuances, que adota ritmo próprio para, em dois tempos, contar a história de Clara. Nos anos 1980, ela (Barbara Colen) é uma jovem mulher que acaba de escapar de um câncer. Na atualidade (Sonia Braga) é uma senhora de 65 anos, viúva, última moradora de um apartamento no condomínio Aquarius, cobiçado por uma empresa de construção que lá pretende edificar um edifício alto. O imóvel fica na valorizada praia de Boa Viagem, no Recife.

Num fio narrativo, pode-se dizer que a história de Aquarius é a de uma mulher valente que resiste à especulação imobiliária. Por essa linha fina passam muitas outras coisas, entre as quais as relações de compadrio e favorecimentos na sociedade brasileira, em particular entre poderosos. Algo do Brasil profundo se entrevê através da lente de refração do filme. Que, no entanto, não se furta a abordar um leque temático amplo, incluindo a liberação sexual, relações familiares, a cumplicidade entre amigas, relacionamento entre patrões e empregados domésticos, etc. É mais um “retrato do Brasil” proposto pelo diretor de O Som ao Redor.

O resulto é brilhante, caloroso, envolvente, musical. Embarca-se em Aquarius como para uma viagem serena porém emocionante, de revelações e encantos que comporão uma memória de futuro. E sim, Sonia Braga tem nele o mais complexo papel de sua carreira cinematográfica. E responde ao desafio de maneira estupenda. Em certo sentido, o filme é ela.

Muito ainda há de se falar sobre Aquarius. E se um governo se dispõe a perseguir obra de tal envergadura, é porque nasceu mesmo ilegítimo e sem alma.