Gramado 2021: O Novelo e a questão do pai
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Gramado 2021: O Novelo e a questão do pai

Luiz Zanin Oricchio

16 de agosto de 2021 | 13h31

 

Dia 3.

Numa noite dedicada à diversidade da sociedade brasileira, Gramado apresentou O Novelo, obra coral com elenco negro, e Extermínio, com personagens trans na cidade de Cachoeira do Sul (RS). Hoje à noite, prossegue a mostra brasileira e é apresentado o primeiro dos concorrentes estrangeiros. 

O Novelo

A história é a de cinco irmãos. O pai abandonou a família ao nascer o mais novo e a mãe criou os meninos sozinha. Ela também morreu cedo e o papel de pai passou ao primogênito. O filme se situa na atualidade, mas coloca alguns flashbacks para mostrá-los na infância e na adolescência. 

A diretora Claudia Pinheiro, em sua estreia em longas-metragens, faz questão de quebrar estereótipos. Os cinco irmãos compõem uma família como qualquer outra, nem melhor nem pior. Normal. Há o mais velho, tido pelos outros como pai substituto. O mais novo se dedica ao teatro. Um deles ficou rico. O outro é psicanalista famoso, autor de livros de sucesso, e gay. Outro separou-se da mulher, esforça-se para ver as filhas nos fins de semana e enfrenta problemas com o alcoolismo. 

Quando são avisados de que há um idoso à beira da morte, e talvez seja o pai deles, dirigem-se ao hospital. Nessa improvisada reunião de família, os traumas, rivalidades e dívidas emocionais vêm à tona. No sentido literal e figurado, os irmãos tricotam à espera do desfecho. O núcleo do filme é essa DR familiar em torno desse moribundo que nem sabem direito se é o pai porque a pessoa foi agredida e tem o rosto muito ferido.  

O filme é uma adaptação da peça homônima de Nanna de Castro, que também assina o roteiro. A opção por elenco quase inteiro negro obviamente lhe dá camada adicional de leitura neste momento de luta antirracista. 

O ponto forte de O Novelo é o elenco central, muito bom, formado por Mauro (Nando Cunha), Cacau (Sidney Santiago), Cicinho (Rocco Pitanga), Zeca (Sérgio Menezes), João (Rogério Brito). Incluindo-se aqui as pequenas participações de Isabel Zuá, como a mãe, e André Ramiro, como o pai. Já a dramaturgia não empolga tanto. A intensidade das tensões em jogo entre os irmãos é mais intuída pelo espectador que expressa na tela. Falta profundidade à contradição dos conflitos. Vale por andar na contramão dos estereótipos colados tanto aos personagens masculinos quanto às pessoas negras.

Nesse sentido, foi muito oportuna a intervenção dos atores Sidney Santiago e Nando Cunha no debate online. Reafirmaram a necessidade de filmes como O Novelo, que colocam personagens negros em situação de normalidade. Sem armas da mão, sem serem habitantes de moradias precárias, sem estarem envolvidos de qualquer forma nas carências absurdas da realidade brasileira. Pessoas, apenas, com problemas e virtudes como qualquer um. Santiago coloca O Novelo numa linha filmográfica que vai de Assalto ao Trem Pagador (Roberto Farias), Filhas do Vento (Joel Zito Araújo) e Café com Canela (Glenda Nicácio e Ary Rosa). É uma ideia generosa num país de racismo estrutural, quer dizer, sorrateiro. 

Extermínio. Achei muito bom o documentário gaúcho, dirigido por Mirella Kruel. Ela escolhe boas personagens, que abordam temas específicos de suas vidas. A relação com o corpo, a transição, o trabalho nas ruas, o medo, os sonhos. Sob essas histórias de vida, paira o crime cometido contra uma delas, Nychole Rocha, assassinada por menores de idade. Pai e mãe da garota também entram como personagens do filme. 

Gostei da maneira como a narrativa se amarra, passando de uma para outra das personagens, com sentido de continuidade. Estas são ótimas narradoras de si mesmas. Como dizia Eduardo Coutinho, não basta a pessoa ter uma história interessante e digna de ser ouvida; é preciso que saiba contá-la. E as meninas do filme falam muito bem. 

O tratamento cinematográfico também é bom, sem invenções, com enquadramentos e iluminação bonitos. Pequenas intervenções “ficcionais” evocam o clima de violência em que vivem. E, acima de tudo, ressalte-se a posição da diretora, de muito respeito em relação a pessoas que se dispõem a abrir sua intimidade e abordar temas muitas vezes delicados. 

Curtas

Desvirtude (RS), de Gautier Lee. História de uma estudante universitária negra que sofre injúria racial, caso que tem desfecho trágico. 

Stone Heart (AM), de Humberto Rodrigues. Animação de desenho requintado, mostra uma distopia com a destruição do meio ambiente. 

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