Gramado 2021: Homem Onça e o desmanche do Brasil
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Gramado 2021: Homem Onça e o desmanche do Brasil

Luiz Zanin Oricchio

15 de agosto de 2021 | 14h37

 

Dia 2. 

Mais uma ótima sessão do Festival de Gramado, que foi terminar na madrugada, por volta de 1h30 da manhã. Com esse horário, se estivéssemos no presencial, iríamos todos dormir sem jantar. Até o restaurante Tarantino estaria fechado. Mas a maratona foi compensadora, em especial por este filme fora da curva que é Homem Onça, de Vinícius Reis, e também pelo longa gaúcho A Colmeia, que tem qualidades. 

Homem Onça (RJ), de Vinícius Reis. Em primeiro lugar, deve-se dizer que Homem Onça é um filme de caráter pessoal e familiar. Vinícius Reis inspira-se em seu pai, funcionário da Vale, demitido com a privatização da empresa. Entrou em parafuso, deixou a família e foi morar em sua cidade natal, no interior de São Paulo. 

Chico Diaz faz Pedro, um executivo da fictícia Gás Brasil. Estamos em 1997, a empresa é lucrativa, nacional, mas isso não quer dizer mais nada. Pedro e sua equipe serão desalojados dos seus empregos e a companhia passará a se chamar GásBrax. Assim como havia a proposta de rebatizar a Petrobras como Petrobrax, pois facilitaria as negociações no exterior. 

O encanto (e a dor) de Homem Onça está na recriação de um cotidiano que será destruído. O companheirismo de equipe, a premiação do projeto ecológico no exterior, o futebol society com os colegas depois do serviço, o barzinho após o jogo, a música, a confraternização. Tudo isso evapora. Evoca-se um país à beira de desaparição, sem que os protagonistas se deem conta. 

Ao naturalismo de abordagem, beneficiado por um elenco excepcional, soma-se um discreto elemento do fantástico. À medida que sua vida vai sendo destruída, Pedro começa a apresentar manchas em sua pele. Talvez um processo psicossomático, como o vitiligo desenvolvido pelo pai do diretor na saída da Vale. Ou algo mais alusivo, simbólico, como as manchas de pele evocando as pintas da onça que rondava a mata da cidade de origem de Pedro. Pedro é um dinossauro, um animal tão em extinção como as onças nas matas brasileiras. 

À medida que as referências de Pedro lhes são roubadas, o casamento com Sonia (Silvia Buarque) entra em crise. Ele vai buscar em uma antiga namorada, Lola (Bianca Byington), e na cidade da infância, algum outro centro de vida possível. 

Com privatizações e país à venda, modos de existência vão para o buraco. No mundo dos negócios e da expansão do capital falar em seres humanos torna-se completamente fora de moda. Out, coisa do passado. Papo de gente velha e fracassada. À sua maneira, esse filme cheio de ternura e afeto é também uma advertência para a direção tomada e que nos leva ao abismo. Quando, como agora, vivemos em meio ao horror, temos uma oportunidade preciosa para meditar sobre o nosso destino. E, talvez, alterá-lo. O filme estreia nos cinemas dia 26 de agosto. E também no streaming Belas Artes à la Carte. Não compreendi se simultaneamente. 

A Colmeia (RS), de Gilson Vargas, é um filme curioso. Fala de um grupo de imigrantes alemães vivendo no sul do país. O isolamento, as relações complicadas com a vizinhança, a proibição de falar o idioma, a quebra de coesão do grupo, as tensões internas são expressos numa narrativa por vezes bastante rarefeita. O destaque é para o registro fotográfico de Bruno Polidoro, que se aproveita da luz natural, de fogueiras e velas para criar um ambiente seco, distanciado, um tanto doentio. O filme tem muito valor, mas, da metade para o fim, a meu ver, a narrativa se esgarça em demasia. 

Curtas

Entre Nós e o Mundo (SP), de Fábio Rodrigo. A personagem é Erika Felipe, prima do diretor, que teve um filho, Theylor, de 16 anos, assassinado em uma batida policial. Olhar de quem esteve sempre nesse ambiente e não externo. Um bom domínio da situação documental, registro da relação trágica entre Estado e despossuídos neste país.  

Animais na Pista (PB), de Otto Cabral, é adaptação livre de um conto de Rubem Fonseca. Registro noturno de um acidente rodoviário, com as pessoas assumindo comportamento predador na situação de emergência. O filme mostra o “ethos” contemporâneo, de tirar vantagem sobre a tragédia alheia e é, segundo o diretor, um convite para tomada de consciência nesta época de crise e descalabro. Embora a situação descrita se refira a fatos de outra ordem, lembra o país em que vivemos, em que “pessoas de bem” tentam levar vantagem em tudo, até mesmo numa situação de pandemia que já tirou a vida de mais de meio milhão de brasileiros. Basta assistir à CPI da Covid para perceber com que tipo de gente estamos lidando após as eleições de 2018.