Gramado 2021: Carro Rei e as distopias totalitárias
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Gramado 2021: Carro Rei e as distopias totalitárias

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2021 | 15h51

 

Dia 6

Uma noite bastante surpreendente, em especial com a apresentação de Carro Rei, de Renata Pinheiro, na competição nacional. Entre os estrangeiros, o uruguaio La Teoría de los Vidrios Rotos, comédia com aquele minimalismo típico do país vizinho. Entre os curtas, Onde Vão os Pés e Memória de quem (não) fui, ambos voltados a questões de gênero. Esta noite a mostra competitiva chega ao fim (já????) com a exibição de Jesus Kid, de Aly Muritiba. 

Carro Rei (PE), de Renata Pinheiro, de fato provoca espanto. Com sua estética tecno retrô, em diálogo com a ficção científica e com a narrativa fantástica, expõe-se como uma espécie de objeto não identificado no panorama do cinema brasileiro contemporâneo.  

Para quem não viu, breve sinopse. Uno (Luciano Pedro) tem a faculdade de compreender a linguagem dos automóveis. Seu tio, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele) é um mecânico de gênio. Uma lei municipal proíbe que carros com mais de 15 anos de fabricação continuem em circulação, o que põe em perigo a frota de táxis do pai de Uno. Numa trama paralela, um grupo agrícola comunitário desenvolve pesquisas para revitalização do solo. Entre elas, a garota Amora (Clara Pinheiro, filha da diretora), que desenvolve uma relação com Uno. 

Em sua inventividade selvagem, essa revolta dos carros remete a várias referências, como Christine, o Carro Assassino, Fuscão Preto, Crash, Ballard, Metrópolis, Branco Sai, Preto Fica, Eu, Robô, 2001 – uma Odisseia no Espaço, e etc. Caçar citações ou influências é divertimento de críticos e cinéfilos. Dispensável para quem deseja apenas se deixar envolver pela obra de arte, ser sensibilizado por ela ou nela encontrar material para reflexão. 

Nesse sentido, Carro Rei explode em várias direções e produz uma bem-vinda tempestade cerebral em quem assiste. É bem possível ver nele um questionamento da relação homem-máquina e de como nos deixamos seduzir por elas a ponto de nos desumanizarmos. Como diz o personagem Zé Macaco, o primeiro símio que empunhou uma pedra (ou um osso) ganhou uma extensão no braço, que potencializou a sua força (Sim, pode ver aí uma citação dos símios de 2001 à sombra do monolito .

A tecnologia é também poder e a trajetória de Zé Macaco abre-se em duas direções: mentalmente adquire novos poderes tecnológicos; no corpo, involui na escala zoológica. A transformação corporal de Matheus Nachtergaele é impressionante. 

Se alguém quiser enxergar nessa fábula a emergência do fascismo em uma luta antissistema, também não estará errado. Dá-se quando a justa revolta dos carros usados passa a ser guiada por um recém-criado líder de ideias totalitárias. Alguma surpresa? De novo: alguma surpresa que a sensação de ter sido deixado para trás, o velho ressentimento, sirva de mola propulsora para regimes odiosos, liberticidas e mortais, em último termo? Olhe para a Itália fascista e para a Alemanha nazista. Olhe para os regimes da Hungria, Turquia, Brasil. Olhe para Trump. Olhe para nós. 

Carro Rei é essa espécie de espelho deformado que reflete nossa própria imagem como país, com uma semelhança fabular muito perturbadora. 

La teoría de los vidrios Rotos (URU), de Diego Fernandez Pujol.

O perito de seguros Claudio Tapia (Martin Slipak) julga que tirou a sorte grande ao substituir um gerente responsável pela clientela de uma cidade do interior. Lá chegando, vê que se enganou. Encontra hostilidades e problemas. Aliás, um problemão, já que carros estão sendo incendiados durante a noite e os proprietários exigem pronto pagamento das apólices.

O sutil humor uruguaio dá sabor a essa pequena história de mistério. A investigação em si não parece lá muito promissora, mas são os aspectos da província que contam mais na narrativa. Desde o delegado (Cézar Troncoso), que conhece toda a cidade até o latifundiário (Roberto Birindelli), candidato a deputado, e que se julga dono de tudo e de todos. As mulheres não ficam atrás e desempenham papel importante na trama e também na solução do mistério. Achei o trajeto interessante e o desfecho um tanto brusco.   

Curtas

Aonde vão os pés (PR), de Débora Zanatta. Aqui trata-se da história da garota que busca sua iniciação no sexo de maneira pouco convencional. Tentativa bem-sucedida de evitar clichês no tratamento de temas homoafetivos.  

Memória de quem (não) fui (RJ), de Thiago Kistenmacker. Maneira original de enfrentar a questão da identidade de gênero. História de Marina, que depois de morta, é “recuperada” pela família ao seu gênero biológico.