Gramado 2021: Álbum em Família, um meta Nelson Rodrigues para um tempo de pandemia
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Gramado 2021: Álbum em Família, um meta Nelson Rodrigues para um tempo de pandemia

Luiz Zanin Oricchio

17 de agosto de 2021 | 14h08

 

Noite 4. 

A sessão, marcada pelo filme de pandemia Álbum em Família, teve também curtas de temática identitária, o que vem sendo o recorte desta curadoria, e mais o primeiro concorrente latino-americano, o thriller político boliviano Pseudo.

Álbum em Família, de Daniel Belmonte, é, de forma resumida, o ensaio online da peça Álbum de Família, de Nelson Rodrigues. “Ensaio” no sentido menos convencional e técnico do termo. É muito menos a preparação de um espetáculo – que, de resto, não vai acontecer – que uma especulação sobre as possibilidades desse velho e escandaloso texto teatral, proibido em sua época. 

Com as pessoas reunidas por uma plataforma de “lives”, a nossa forma de relacionamento social durante o isolamento, o legado de Nelson Rodrigues é esbatido em fragmentos. Nelson é um autor revolucionário. Nelson é um reacionário. Nelson é racista, Nelson apoiou a ditadura (mas também teve um filho preso pela mesma ditadura). Um dos atores diz que “detesta Nelson”. Para depois acrescentar que “Nelson é um gênio”. 

Por outro lado, o arquétipo de família distópica proposta por Nelson em 1945 se aproxima perigosamente do moralismo obsceno do país em 2021. Nelson era um profeta? Em termos, sim, porque falava da profunda “obscenidade do casto”, o que remete, de forma direta, para o discurso neopentecostal contemporâneo aglutinado como projeto de poder sob o pretexto de pautas de costumes. Enfim, Nelson, com sua personalidade heterodoxa, foi o grande crítico do falso moralismo suburbano, o que o coloca de forma direta na atualidade brasileira. Mas, vista de forma realista, uma peça como Álbum de Família parece absurda. É preciso vê-la no plano do mito, como percebeu Sábato Magaldi, em texto aliás citado no filme. 

Álbum em Família, o filme, é um processo contínuo de invenção, com algumas soluções muito bem sucedidas, outras nem tanto. Traz o encanto e o desencanto do metacinema. Ou do metateatro. Pode-se dizer que também reflete a perplexidade da nossa “metavida” de isolamento, feita de recolhimento compulsório e reunião através de telas de computador, com quedas de rede, microfones mutados e a imensa angústia de estar perto e longe ao mesmo tempo. Essa dor se combate com humor.

E esse isolamento se traduz em outro fenômeno, o insulamento dos indivíduos em seus próprios grupos familiares. Não mais trabalho fora de casa, barzinho com os amigos, futebol de fim de semana, encontro com as amigas, praia, etc. Nada, nadinha. Agora é só com a família, 24 horas por dia, sete dias por semana, já faz um ano e meio. Pode ser reconfortante. Pode ser desesperador. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Com o confinamento, ficamos mais próximos das nossas famílias nucleares. Pudemos senti-la, e sofrê-la. É um processo de autoconhecimento. E também de conhecimento da própria estrutura familiar. Por isso, e não por acaso, no ensaio de uma peça sobre a estrutura mítica da família, os atores e atrizes voltam-se para suas próprias famílias, num doce momento de retrospecto através de fotos. A família agridoce.  

O filme foi feito para quebrar o isolamento, dentro do possível, e também para marcar um momento de resistência neste momento de desmanche. Foi feito para romper a inércia. Como diz Otávio Müller, um dos atores, “não vamos parar!” Não vamos mesmo. 

Pseudo

Interessante o thriller político Pseudo, de Gory Patiño e Luis Reneo. Um motorista de táxi transporta um passageiro que se diz fotógrafo. Pára quando avista um corpo caído na pista. O fotógrafo desce e é atacado por um grupo. Era uma armadilha. Um assalto. O motorista consegue fugir com o táxi. Se apossa dos pertences do fotógrafo, que pensa ter sido morto no ataque. Desesperado atrás de dinheiro, resolve passar-se por ele.

Esse é o ponto de partida para uma trama que envolverá um atentado político, um grupo que trama um golpe de Estado e um acerto de contas com crimes políticos do passado. Projeto ambicioso, que principia de maneira modesta, como um registro realista sobre as carências dos nossos países, inclusive em matéria criminal. 

A história é bem bolada e se vai abrindo em camadas, como uma cebola. Talvez não seja abusivo notar a inspiração de um clássico, Passageiro: Profissão Repórter, de Michelangelo Antonioni, em que um personagem assume a identidade de um morto. Tema, aliás, do Pirandello de O Finado Mattia Pascal. 

Com essa sombra fabular a inspirá-lo, Pseudo agrada pela pulsão realista, pela maneira com que percorre suas várias camadas, que vão da precariedade do dia a dia, com a necessidade de ganhar o pão da maneira que for, às altas esferas do poder e seus crimes contra populações indígenas. À sua maneira de aventura, pinta um panorama de caos, no qual as pessoas tentam sobreviver da maneira como podem. A América Latina não é para fracos. 

Curtas. 

 Muito legal o cearense A Beleza de Rose, de Natal Portela, em que a discriminação racial disfarçada entra de maneira sutil na candidatura de uma moça negra a um emprego. Sem discursos, as cenas vão mostrando uma sociedade que não se diz racista, mas que “sugere” às pessoas um processo de embranquecimento para que se deem bem. 

Em Fotos Privadas (RJ), o diretor Marcelo Grabowsky mostra um casal, Rafa e Matheus, que chama por aplicativo um garoto de programa para apimentar a relação. Um filme muito focado no corpo dos atores, retratando os caminhos do desejo de cada um quando um terceiro termo se inclui na relação. Bem filmado. 

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