Gramado 2021: A Suspeita, noir à brasileira
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Gramado 2021: A Suspeita, noir à brasileira

Luiz Zanin Oricchio

14 de agosto de 2021 | 15h03

Olá, galera. “Estamos” em Gramado para mais uma cobertura do festival. As aspas significam que estamos, de fato, diante da TV (Canal Brasil) vendo os filmes. Pelo segundo ano consecutivo, em virtude da Peste, não fomos à serra gaúcha. Em todo caso, mantenho aqui esse diário de bordo, com os filmes que for vendo. Notação sucinta, típica do agito de festivais, quando não se tem tempo para (quase) nada e os textos precisam ser sumários. Apenas uma primeira impressão, para obras que, por certo, terão novas oportunidades de apreciação quando entrarem em circuito, no caso dos longas. 

Isso para dizer que Gramado 2021 teve um bom start. Falemos dos longas. 

A Suspeita, dirigido por Pedro Peregrino, é uma espécie de noir à brasileira, com excelente ideia de partida. Lúcia (Glória Pires), uma policial de 55 anos, está metida numa investigação perigosa. Além do mais, luta contra o Mal de Alzheimer, que avança de maneira rápida e implacável.

Lá no fundo, que talvez esteja na superfície como diria Nietzsche, a questão é a memória. Um tema universal, mas brasileiro demais, visto que somos conhecidos como povo sem qualquer traço de amor em relação à memória, à história e ao autoconhecimento, coisas interligadas. 

Lúcia avança em sua busca, mas tropeça em falhas de memória. E, também, na resistência dos superiores, já que a linha de investigação a leva à cúpula da polícia. 

O argumento é de Luiz Eduardo Soares, sociólogo que se dedica ao tema e entende do riscado. A filmagem é bem realizada. Em particular com os planos-sequência que seguem os personagens de perto, como se anunciassem os labirintos que se encontram pela frente da policial honesta, determinada e…desmemoriada. 

Essas limitações (em particular a memória que se esvai) entram na linguagem do longa, mas, a meu ver, não o suficiente. Talvez uma opção mais radical o fragmentasse demais na opinião de quem pensa em sua carreira comercial. E talvez seja verdade mesmo, porque não se vê mesmo muita disposição do público para o pensamento e para as coisas difíceis hoje em dia. Mas, certamente, seria um filme melhor. 

A destacar, a atuação contida (às vezes até demais) de Glória Pires, por certo uma atriz de muitos recursos. E também para o trabalho de câmera com seus planos e enquadramentos muito eficazes. Falta, ao conjunto, um pouco de pulsão – para não usar outra palavra também terminada por ditongo nasal. 

Cavalo de Santo, de Mirian Fichtner e Carlos Caramez, é o primeiro longa da Mostra Gaúcha. O documentário é baseado no livro homônimo da diretora, e é resultado de dez anos de pesquisas. Chega a uma conclusão totalmente contraintuitiva, não só sobre a presença da religiosidade de matriz africana no Rio Grande do Sul, mas sobre sua magnitude. Haveria mais devotos dos cultos afro-brasileiros no Rio Grande do Sul do que no Rio de Janeiro, e, pasmem, na Bahia!

Estatísticas à parte, o trabalho é realizado de maneira muito lúcida, aguda e respeitosa. Revela que essa força da religiosidade afro-brasileira em terras gaúchas representa uma espécie de veio subterrâneo, escondido sob camadas de preconceitos e racismo. Estado formado com maciça imigração europeia, costuma relegar a segundo (ou melhor, a undécimo plano) a participação da população negra na construção do Estado e em sua formação cultural. Sob a capa de branqueamento, as religiões de origem afro, em suas três vertentes, umbanda, quimbanda e batuque, ficam de certa forma ocultas. 

Portanto, o documentário tem essa virtude de expor à luz do dia uma realidade da qual não suspeitávamos. Ao mesmo tempo, em época de luta antirracista, opera sua função crítica e destaca a índole discriminatória da elite branca gaúcha. 

Ótimo documentário, não apenas por aquilo que nos esclarece, mas também pela maneira respeitosa como registra os cultos e traça o retrato dos seus personagens. Civilizatório. 

 Curtas

Quanto Pesa, de Breno Nina (Maranhão) me desceu melhor agora na revisão. Gosto em particular de Tieta Macau, mais performer que atriz como ela mesma afirma. O filme põe em evidência a questão da negritude, mas de forma nada didática ou expositiva. O espectador que conclua. Tanto assim que Breno mandou a seguinte sinopse ao festival e assim está publicada no catálogo: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já tivesse sido ateado” (Lucas 12:49). 

A opção por planos em superclose podem incomodar. Em especial quando retrata detalhes do mercado onde a personagem trabalha. É preciso épater la bourgeoisie, como se dizia em outros tempos. Depois os planos se distanciam, ganham força expressiva e o filme termina de maneira aberta – e muito evocativa. 

Em seu jogo de palavras, O que Há em Ti é mais um opus do inventivo diretor Carlos Adriano. O filme é densamente político e foi inspirado pela fala de um imigrante haitiano no cercadinho do Palácio do Planalto. Lá, em 16 de março de 2020, esse homem corajoso expressou o desejo de boa parte da população brasileira: “Bolsonaro, você acabou. Você não é mais presidente da República”, disse ele. Não se conhece o destino desse rapaz. 

Num acúmulo de referências, o filme passa pela fabulosa canção de Caetano e Gil,  pela figura de Toussaint L’Ouverture e a revolução haitiana, pela menção aos generais brasileiros, bolsonaristas avant la lettre, que comandaram a desastrosa intervenção do Haiti e hoje ocupam postos no governo. Tudo procede por acumulação, em que imagem constrói imagem e significado remete a significado. Brilhante e impactante. O Haiti é aqui. 

 

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