Gramado 2021: A Primeira Morte de Joana e o despertar do sexo
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Gramado 2021: A Primeira Morte de Joana e o despertar do sexo

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2021 | 12h54

Dia 5. 

Dois longas delicados no programa de ontem à noite em Gramado: o brasileiro A Primeira Morte de Joana e o chileno Gran Avenida. Nos dois curtas, a pulsão jovem e irreverente com Eu Não Sou um Robô e a crítica social em Per Capita. No todo, um bom programa, com filmes agradáveis e bem construídos. 

A Primeira Morte de Joana (RS), de Cristiane Oliveira, ambienta-se na cidade litorânea de Osório. Bonito lugar. Dá vontade de morar lá. Ou passar férias. Talvez não tenha nada o que fazer, o que pode ser uma benção. Ou não. De toda forma, a placidez serve ao filme, no qual vidas adolescentes crescem nesse ambiente. Outra informação: Osório está se modificando com a implantação de parque eólico que os locais chamam de “cataventos”. Há o vento forte, símbolo de mudança. 

A primeira morte de Joana (Letícia Kacperski), 13 anos, será a de uma tia que, segundo reza a lenda familiar, “jamais namorou alguém” ao longo dos 70 anos que lhe foram concedidos. A frase repercute sobre a menina Joana, que a toma como um enigma pessoal e voltará, como refrão, ao longo de toda a história, um enigma a ser decifrado. 

A família é de origem alemã e sobrevive da venda de cucas (ótimo bolo tedesco) e do pequeno artesanato vendido aos turistas na beira das lagoas – Osório é também conhecido como a terra das lagoas. Joana tem uma colega de escola, Carol (Isabella Bressane), com quem troca confidências amorosas. Tem também uma mãe preocupada e uma avó liberal. Carol vive com o pai, a mãe foi estudar na Alemanha e voltou para uma visita de férias. O relacionamento entre Joana e Carol aos poucos coloca-se como central na trama. 

Típico coming of age, A Primeira Morte de Joana põe em primeiro plano a questão amorosa, colocada para todo ser humano a partir da adolescência. Na verdade, muito antes dessa fase, ensinou Freud. Mas na adolescência, os hormônios começam a ferver, o amor genital impõe sua presença e tudo se torna mais intenso e portanto conflituoso. 

Pode-se dizer que a essa tempestade interna, o filme responde com uma estética serena e até certo ponto plácida. Gostoso de ver e com subtextos que o tiram do lugar-comum. 

Uma nota: a presença de cultos afro-brasileiros em meio a uma comunidade de ascendência europeia, dá razão a um documentário apresentado no primeiro dia do festival, Cavalo de Santo. 

Gran Avenida

O chileno Gran Avenida, de Moisés Sepúlveda, diretor do ótimo Las Analfabetas, põe em contato alguns personagens que habitam em torno da avenida do título. Camilo (Ivan Parra) é dono de uma pequena empresa e deseja ter um filho. Já sua mulher, a dentista Josefina (Paulina Giglio), toma a pílula anticoncepcional em segredo e sonha em morar no Brasil. Ronald (Gabriel Cañas) trabalha num escritório e deseja passar mais tempo com a filha. Sua ex-mulher planeja mudar-se, com a criança, para a distante Antofagasta. 

O roteiro é engenhoso. Alguns incidentes alteram a vida dos personagens. Parece roteiro de filme iraniano, tamanha a sua inteligência. Josefina reencontra um ex-colega de escola e o convida para tomar um chá. Camilo, o marido, fica desconfiado de que o estranho possa ter lhe furtado o celular e arma uma cena constrangedora, que terá repercussão sobre o futuro do casal. Ronald vai buscar a filha na escola e por descuido acaba se perdendo da menina na rua. Histórias e personagens se entrelaçam. As mentiras circulam entre os personagens e determinam o curso das histórias cruzadas. 

Gran Avenida é aquele tipo de filme a que se assiste com atenção e prazer. E não sem certa inquietude. Os três personagens principais são muito interessantes. Complexos e contraditórios. Camilo é uma espécie de Otelo machadiano, cheio de suspeitas de estar sendo enganado. Pode ser pela esposa que leva um estranho à sua casa. Pode ser o desaparecimento de um telefone celular ou de um funcionário que talvez tenha inventado a morte da mãe para enganar o patrão. 

Curtas

Eu Não Sou um Robô (RS), de Gabriela Lamas, evoca, no título, aquela famosa pergunta que a gente tem de responder ao entrar em alguns sites. A diretora, e também atriz, tenta responder a essa questão, se somos ou não robôs, num instigante monólogo, secundado por uma espécie de Homem Mosca que com ela “dialoga”. Inventivo. 

Per Capita (PE), de Lia Letícia, inspira-se no universo de J.G. Ballard, o autor inglês de Crash (filmado por Cronenberg) e O Reino do Amanhã. Em preto e branco, uma mulher está deitada em uma cama, tomada por uma crise de pânico, diante de uma janela na qual uma paisagem marítima deslumbrante se descortina. Em outra sequência, um grupo de jovens destrói um carro na rua. Muitas questões nesse filme forte, e colocadas à flor da pele: o pânico que o consumo não atenua, pelo contrário estimula, a erotização das máquinas, a atração irresistível pela violência como meio de contornar frustrações. Uma receita quase infalível para o fascismo, uma decorrência talvez inevitável do hiper capitalismo.  

 

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